Na falta de vaga, desempregado vira 'faz-tudo'
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sábado, 06 de outubro de 2001
Rosana Félix <br> De Curitiba 
As dificuldades de muitos desempregados para retornar ao mercado de trabalho fazem com que boa parte busque colocação em profissões que não exigem longo tempo para qualificação, como encanador e eletricista. Esse é o cenário descrito pelo coordenador da área da construção civil do Serviço Nacional da Indústria (Senai), Edvaldo Pires Corrêa. Segundo ele, neste ano a unidade deve formar mil alunos em cursos profissionalizantes. ''Muita gente que está desempregada quer um caminho rápido para ter acesso ao mercado de trabalho, e isso ocorre na construção civil'', relata Corrêa. ''Em vez da pessoa procurar trabalho formal, em que é exigido segundo grau ou conhecimentos de informática, resolve trabalhar por conta própria'', observa.
Nos cursos de aperfeiçoamento em construção civil oferecidos pelo Senai em Curitiba, a grande maioria dos alunos é formada por homens entre 30 e 40 anos, desempregados, com baixa escolaridade e moradores da Região Metropolitana de Curitiba, informa Corrêa. Neste ano, 60 pessoas se formaram como encanadores. ''Oferecemos o que o mercado pede. Encanador e pintor está um pouco saturado mesmo'', relata.
De acordo com a coordenadora da unidade da Cidade Industrial de Curitiba (CIC) do Senai, Rosane Lara, cerca de 40% das 140 pessoas que fizeram cursos de treinamento de eletricista neste ano estavam desempregadas. A exigência para o curso é ter até a sexta série completa.
A entrada de mais pessoas atuando como encanadores ou eletricistas incomoda os profissionais que se especializaram na área. A concorrência diminuiu o número de atendimentos de Neri dos Santos, um tipo ''faz-tudo'': encanador, eletricista, técnico de fogões, geladeira e aquecedores. Ele diz que há 30 anos trabalha no ramo. ''Cinco anos atrás eu fazia uma média de oito atendimentos por semana. Agora diminuiu bastante, e faço só uns dois. Assim mesmo porque invisto bastante em panfletagem'', conta.
Para Santos, a concorrência que uma pessoa experiente tem com um novato no ramo é injusta. ''Um desempregado, para arranjar um dinheiro, pega uma chave de fenda e diz que é eletricista. Para um serviço que ele nem sabe fazer direito vai cobrar uns R$ 15, sendo que para compensar a visita, a gasolina e o trabalho teria que ser uns R$ 50'', afirma.
O mercado de trabalho também ficou mais difícil para o encanador Leonel Pires, que tem 12 anos de experiência. ''Há muita gente nesse ramo, mas poucos são profissionais'', opina. Ele também diz que o número de clientes diminuiu um pouco. ''Principalmente pessoas do interior, que vem para Curitiba trabalhar como pedreiro e encanador.''
Porém, para o coordenador da área de construção civil do Senai, há várias maneiras do profissional dessas áreas se especializar e não perder clientes. ''O profissional que se atualiza com palestras, feiras e contatos com fornecedores tem lugar no mercado'', opina Corrêa. Segundo ele, é preciso ampliar o leque de conhecimentos. ''Hoje ele é encanador, amanhã pode ser mestre-de-obras'', exemplifica.
Uma maneira fácil de se manter atualizado, e que não necessita de investimento, é manter contato com os fabricantes, explica Corrêa. ''As empresas investem em informação gratuitas aos profissionais porque não querem que as peças que produzam sejam mal aplicadas. Basta que o trabalhador ligue para os telefones 0800 das empresas pedindo ajuda'', dá a dica.


