Pequim, 09 (AE-AP) - Tendo ganho o apoio chinês para a campanha militar da Rússia na Chechênia, o presidente russo, Boris Yeltsin, criticou duramente o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, lembrando a Washington que Moscou ainda tem um arsenal nuclear.
Ao lado de Li Peng, presidente do parlamento da China e líder mais linha-dura do governo comunista, Yeltsin disse a repórteres que queria que eles enviassem uma mensagem a Clinton, que criticou a Rússia esta semana por causar vítimas civis na Chechênia.
"Parece que o senhor Clinton esqueceu que a Rússia é uma grande potência que possui um arsenal nuclear. Não temos medo nenhum da posição anti-russa de Clinton", afirmou Yeltsin. "Eu quero dizer ao presidente Clinton que ele sozinho não pode ditar como o mundo deve viver, trabalhar e brincar. Seremos nós que vamos ditar".
Clinton persistiu hoje com suas críticas à campanha da Rússia na Chechênia, dizendo que ela não irá ajudar Moscou a alcançar seus objetivos na turbulenta região.
"O objetivo deles, o objetivo legítimo, é derrotar os rebeldes chechenos e parar com o terrorismo deles dentro da Rússia, parar com a invasão deles de províncias vizinhas como o Daguestão", afirmou Clinton, "e não acho que deslocando centenas de milhares de civis irão alcançar esse objetivo".
Yeltsin, que deixou o hospital na segunda-feira depois de lutar uma semana contra uma pneumonia, parecia animado, em contraste com a fragilidade e rigidez que mostrou mais cedo hoje ao desembarcar do avião e quando encontrou-se com o presidente chinês, Jiang Zemin.
No primeiro de seus três encontros programados na visita de 30 horas a Pequim, Yeltsin e Jiang discutiram a campanha russa visando eliminar da Chechênia o que Moscou diz ser terroristas e separatistas.
Ambos criticaram o domínio global dos Estados Unidos.
"Jiang Zemin entende completamente e apoia inteiramente as ações da Rússia no combate ao terrorismo e extremismo na Chechênia", afirmou o ministro do Exterior russo, Igor Ivanov, depois da reunião.
A porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Zhang Qiyue, disse numa entrevista em separado que a China "entende e apóia os esforços feitos pela Rússia para salvaguardar a unidade nacional e a integridade territorial".
A manifestação do apoio chinês era um objetivo crucial da viagem de Yeltsin. A campanha contra a Chechênia tem atraído fortes críticas dos Estados Unidos e nações européias, e os militares russos advertiram aos moradores da capital chechena para fugirem ou terão de suportar ataques este fim de semana.
Ao chegar a Pequim, Yeltsin parecia pálido. De braço dado com sua mulher, Naina, ele apoiou-se fortemente no corrimão das escadas enquanto descia do avião.
Talvez devido a preocupações com sua saúde, os encontros de Yeltsin com Jiang, com o primeiro-ministro Zhu Rongji e o presidente do legislativo Li foram realizados dentro da isolada casa de convidados estatal. Yeltsin iria jantar privadamente com Jiang no complexo da liderança do Partido Comunista no centro da cidade.
Jiang, que estudou fabricação de carros em Moscou há 44 anos, saudou Yeltsin em russo, chamando-o de "velho amigo". Os dois líderes se abraçaram longamente, antes de dar início à reunião.
Posteriormente, Jiang e Yeltsin observaram seus ministros do Exterior assinar três acordos delimitando as fronteiras de 4.250 km dos dois países e estabelecendo o uso conjunto de ilhas disputadas, pondo fim a uma disputa que provocou escaramuças entre eles há 30 anos.
Yeltsin e Jiang deram início em 1996 a cúpulas anuais a fim de aproximar os dois duros rivais da Guerra Fria e construir uma parceria estratégica. Os dois líderes têm visto sua relação como um meio útil de conter a predominância de Washington nos assuntos mundiais, apesar de tanto a Rússia quanto a China precisarem de apoio dos EUA para suas economias.
Mesmo líderes chineses mais próximos dos Estados Unidos como Jiang temem que os americanos estejam querendo conter a crescente influência da China. Tendo regiões turbulentas no Tibete e no noroeste muçulmano, líderes chineses viram o assalto da Otan contra a Iugoslávia por causa de Kosovo sem autorização da ONU como um perigoso precedente.
Yeltsin e Jiang concordaram que não deve haver "um país dominando o mundo", disse a porta-voz chinesa Zhang. "As questões mundiais devem ser determinadas por todos os países do mundo".
Zhang reiterou que a China considera a Chechênia um assunto interno da Rússia e disse que Moscou "tem tentado evitar perdas civis".
Tendo como pano de fundo a Chechênia, os líderes russo e chinês concordaram em trabalhar contra o terrorismo, extremismo religioso, separatismo e crimes nas fronteiras - "as ameaças do século 21", disse o chanceler Ivanov.
Os governos russo e chinês deverão emitir um comunicado conjunto antes do retorno de Yeltsin a Moscou reafirmando seu comprometimento na luta contra o separatismo e o terrorismo, informaram diplomatas russos.

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