O ouvinte liga o rádio. A FM toca um sucesso de axé-music. Na sequência, outro hit, desta vez de um famoso grupo de pagode. O DJ atende uma ouvinte ao telefone. Ele pergunta qual o gosto musical dela. A ouvinte enumera: É o Tchan, Leandro e Leonardo, Só Pra Contrariar. Este tipo de diálogo, feito com todos os sotaques do Brasil, também pode ser ouvido na versão espanhola. Os habitantes de Foz do Iguaçu, na fronteira do Brasil, com Paraguai e Argentina, são testemunhas que o sucesso do variado cardapio musical brasileiro é cada vez mais popular entre a juventude hispânica do Mercosul.
Ney de SouzaGeraldo: ‘‘Público cativo no lado brasileiro’’As emissoras de maior audiência são as de Ciudad del Este, que contam inclusive com patrocinadores brasileiros. ‘‘Está acontecendo uma coisa muito interessante. De tanto tocar artistas brasileiros, formamos um público cativo também do outro lado da fronteira’’, constata Gerardo Gonzáles, proprietário da FM Integración, de Ciudad del Este. Segundo Gonzales, os locutores recebem cartas, fax e telefonemas em português.
O locutor Gabino Paniagua, 34 anos, comanda o programa matinal Ondas Gêmeas, da FM Integración. A cada hora, executa pelo menos quatro canções brasileiras. Paniagua também lembra que são as emissoras de Ciudad del Este que fazem o elo entre os brasileiros do Paraguai e os paraguaios do Brasil. ‘‘São comuns recados de brasileiros à comunidade dos brasiguaios de Santa Rita e canções dedicadas a paraguaios que vivem em Foz do Iguaçu’’, revela.
Ney de SouzaAlbert: ‘‘As canções sertanejas do Brasil são apreciadas’’Nas cerca de 30 emissoras paraguaias (a maioria piratas) que podem ser sintonizadas na fronteira, predomina a música popular tanto a brasileira quanto a paraguaia. ‘‘Os paraguaios não se interessam muito por pop/rock brasileiro. O que mais nos atrai são os ritmos quentes e as letras mais simples, aquelas que nós entendemos’’, diz Xavier, locutor da Itapiru FM.
Xavier diz que conversa com amigos brasileiros para saber os artistas e as canções que mais agradam o jovem das classes D e E. ‘‘Os adolescentes paraguaios adoram música baiana e, ao contrário do brasileiro, também curte música sertaneja’’, diz. O locutor lembra que, além de falar para dois países, fala para dois públicos distintos. ‘‘Os brasileiros que nos ouve formam um público mais maduro. Do lado paraguaio, prevalece os jovens até os 20 anos’’.
Ney de SouzaFábio: ‘‘O pop/rock em português ainda é raro por aqui’’
IntercâmbioNas FMs de Puerto Iguazú (Argentina), na fronteira com Foz do Iguazu, o fênomeno do sucesso das músicas brasileiros se repete, embora em escala menor. ‘‘Na zona rural, as canções sertanejas do Brasil são muito apreciadas’’, revela o locutor Albert Villa Verde, 27 anos, da FM 104.5. Villa Verde também destaca que em rádio-bailes de cumbia - um ritmo regional do Nordeste argentino - canções brasileiras picantes ou de humor são muito executadas.
O operador Fábio Marcelo Awieta, 22 anos, da FM Libre, emissora cuja a programação predomina músicas do pop/rock hispânico, lamenta que neste segmento as músicas em português ainda sejam raras nas emissoras argentinas. ‘‘Skank, Paralamas e Barão Vermelho só são conhecidos em Buenos Aires’’, exagera. Awieta diz que conhece pouco as bandas brasileiras. O operador afirma que insiste bastante para que os locutores coloquem lançamentos brasileiros na programação. ‘‘Mas eles preferem colombianos e mexicanos’’.Ney de SouzaFreddy: ‘‘O que mais nos atrai são os ritmos quentes’’Lúcio Flávio Moura
Especial para a Folha

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