José Tertuliano de Paula, de 90 anos, é apaixonado por música romântica como as de Carlos Galhardo e Altemar Dutra. Já Lauro Rubem Lima Ferreira, de 67 anos, adora estar bem informado ouvindo rádio. Apesar da diferença no gosto musical, o que esses dois homens têm em comum é o fato da música estar sendo usada como complemento ao tratamento médico, com ótimos resultados na recuperação. A proposta, que agrega outras terapias complementares como a fonoaudiologia, a nutrição e a fisioterapia, vem sendo utilizada em pacientes graves internados no Hospital do Coração de Londrina para melhorar a qualidade de vida e acelerar a alta hospitalar.
Os benefícios da música, segundo o psicólogo Clovis Eduardo Zanetti, podem ser muitos: além de ajudar a reduzir a ansiedade, a música age de forma fisiológica, com a regulação da frequência cardíaca e da pressão arterial, o relaxamento muscular e a diminuição do estresse. ''A música traz um pouco da casa do paciente para o hospital, fazendo com que ele se sinta mais acolhido. Os efeitos fisiológicos são comprovados pela literatura médica - a música regula o tônus muscular que regula todos esses outros parâmetros'', ressalta.
O uso terapêutico da música, segundo o psicólogo, começa com entrevistas com o paciente e seus familiares. A partir disso é feito o diagnóstico desse paciente e a avaliação se no seu caso será benéfica a aplicação clínica da música. ''Os objetivos da aplicação são determinados de acordo com as características clínicas de cada caso e com o perfil musical de cada paciente'', ressalta.
A música é usada de uma a duas vezes por dia, para não cansar o paciente, de preferência depois que ele recebeu visitas. Zanetti explica que é importante que as músicas escolhidas tenham um significado para o paciente, que tenham marcado momentos importantes na sua vida. ''É importante saber se ele tem uma relação boa com a música, e o valor que ela tem na sua vida'', diz.
Aplicada assim, a música não funciona como uma simples distração, mas como realmente uma terapia. ''O paciente angustiado, ansioso ou com dor, tende a se desorganizar psicologicamente. O idoso que fica internado por muito tempo pode ficar confuso e há casos em que ele nem sabe mais quem é. A música chama para um foco, organiza o psíquico para uma direção, deixando o paciente mais concentrado e menos ansioso'', explica.
A música também proporciona sociabilidade e nos casos de Alzheimer, por exemplo, ''é um momento em que o paciente se reencontra consigo mesmo, porque aquilo é a história dele''. ''A música remete para o desejo, e possibilita que o paciente redescubra o próprio desejo, inclusive o de viver'', afirma. Ele lembra que quem aceita música no tratamento já tem um bom prognóstico, pois é um paciente que não está deprimido, estado temeroso no tratamento médico, quando o paciente não tem o desejo de melhorar. ''O primeiro sinal de melhora é querer ouvir música de novo'', brinca.
Há ainda aqueles que não se contentam só em ouvir, mas também querem cantar. ''Tive uma paciente em estado depressivo que só queria viver se pudesse voltar a cozinhar e cantar. Ela cantou durante quatro minutos na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), com uma voz linda, que modificou seu humor e agiu sobre o corpo - dois dias depois teve alta do quadro depressivo'', conta.

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