Museu do Louvre se curva à arte dita primitiva Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 13 (AE) - O Louvre, um dos mais esplêndidos museus do mundo, um dos "templos da arte ocidental", viveu hoje (13) uma "revolução". O presidente Jacques Chirac inaugurou novas salas. Mil metros quadrados e 117 obras.
Algo capaz de provocar desmaios de emoção? Sim! Porque estas novas obras representam a entrada de artes ontem chamadas de "selvagens", "primitivas" no Panteão da cultura ocidental: máscaras negras, estátuas mexicanas, efígies oceânicas....
Todas estas obras já eram conhecidas e admiradas. Nada de inédito. A novidade é que elas são arrancadas de seu ambiente natural, de seu "habitat", separadas de suas "companheiras" habituais (as outras obras selvagens) e misturadas com os maiores gênios do Ocidente.
O "golpe de força" do Louvre consiste em que o visitante poderá admirar, ao mesmo tempo, com um só olhar, a Gioconda, de Leonardo da Vinci, e uma terracota da Nigéria, a Vênus de Milo e uma máscara inuit, feita pelos esquimós do Alasca.
Com o mesmo olhar. E isso é o importante: quando contemplanos, no Museu do Homem, ou no Museu das Artes Oceânicas, uma escultura Dogon ou a moldura de uma casa cerimonial Kanake (Nova Caledônia), buscamos aí sinais etnológicos, ou sociológicos, ou culturais. Certamente, estamos bem conscientes de que estes objetos tinham uma beleza tão fulgurante quanto uma tela de Rembrandt ou uma escultura de Praxiteles, mas o primeiro critério não era estético. Era antropológico.
Hoje chega ao fim esta atitude de lançar à periferia objetos suntuosos dos países mais antigos. Diante destas 117 obras-primas, não se fala mais de arte selvagem ou primitiva. Até mesmo a expressão "art premier" (arte primeira, mais antiga), recentemente proposta, parece já ter caído em desuso. Porque não falar simplesmente "de arte"?
Como sempre, os poetas e os artistas compreenderam isso meio século antes que os políticos superassem sua idiotice: em 1909, o grande poeta Apollinaire escreveu: "O Louvre deveria acolher algumas obras-primas exóticas". Os "fauves" (artistas com idéias revolucionárias de princípios do século 20) e também Picasso proclamaram o gênio de artistas longinquos.
E André Malraux, naturalmente: "Muitos querem a arte negra no Louvre, onde ela entrará!" Na época, essas pessoas eram consideradas esquisitas. Com certeza, se percebia que a arte negra é muitas vezes genial. Entretanto, daí a abrir o Louvre, o "Santo dos Santos" do Ocidente estético, a essa arte, era um grande passo, uma grande distância. A recusa vinha de dois lados: Os curadores do Museu do Homem (riquíssimo e dedicado exclusivamente às artes longinquas) não queriam ceder suas obras-primas e, além disso, faziam questão de que estas obras fossem submetidas ao seu olhar, o olhar etnológico.
Hoje ainda, eles resistem por todos os meios.
Os "devotos" da grande arte, os conservadores habituados a Poussin, Goya, ou Gauguin, resistem também abertamente. Eles não aceitam abrir sua província distinta e aristocrática a esta multidão de artistas cujo nome nem mesmo se conhece e que trabalham em suas florestas ou em seus desertos.
Até mesmo um homem tão notável como o atual presidente do Louvre, Pierre Rosenberg, tem pressa de que estes 117 "intrusos" dos antípodas sejam tranferidos em 2004 para um novo museu, especialmente construído para eles em Quai Branly, em Paris. Rosemberg afirmou: "Em 2004, o Museu Branly apresentará o conjunto destas coleções (primeiras). Não se compreenderia que os visitantes ficassem privados destas obras maiores". (Em outras palavras, mais claras: "Abrigamos estes "imigrantes sem documentos" porque são admiráveis, mas, dentro de três anos, que eles reencontrem seu lugar!") Poderíamos comentar longamente. Destacar, por exemplo, que as obras "canônicas" da arte ocidental vão se metamorfosear quando forem contempladas com o mesmo olhar junto com uma máscara asteca.
Mas, pelo menos, será preciso "dar a César o que é de César". O presidente Jacques Chirac foi quem fez questão de realizar esta operação, lutando "contra ventos e marés". Sua visão é correta. A irrupção de obras longinquas no delicado esplendor da arte ocidental significa também o aparecimento de uma nova visão da política, do mundo, do homem e da história.





