Museu de Arte de Londrina completa 25 anos em risco
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sexta-feira, 11 de maio de 2018
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

O MAL (Museu de Arte de Londrina) completa neste sábado (12) 25 anos de existência. A inauguração foi em 1993 e teve como principal atração a escultura "A Eterna Primavera", de Auguste Rodin. Naquela época foram expostas obras de Menotti Del Picchia (Cabeça de Sancho Pança e Dom Quixote), Victor Brecheret e ainda uma instalação de Yiftah Peled. Artistas locais também exibiram suas obras nessa inauguração, entre elas as esculturas "A Intenção de Cérbero", de Laércio Redondo, "Monumento e Identidade", de Yoshiya Nakagawara, "Vida", de Lucia Nolasco, e "Halos", de Bira Senatore.
O museu foi implantado na antiga rodoviária, que foi projetada pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi em 1948 e inaugurada em 1952, mas foi desativada em 1988. No final de 1989 o prédio passou por uma grande reforma, patrocinada pela Afuvigar (Associação dos Funcionários da Viação Garcia) sob a coordenação dos arquitetos Antônio Carlos Zani e Jorge Marão, professores da Universidade Estadual de Londrina. Desta forma o prédio recebeu a função atual, de museu de arte. No entanto o prédio que foi concebido como rodoviária precisava de adaptações para reunir condições de receber obras de arte. Em 1997 um grupo liderado pela marchand Ana Maria Barreto e pelo médico e colecionador Axel Werner Hulsmeyer criou a Samalon (Sociedade Amigos do Museu de Arte de Londrina).
A Samalon conseguiu as doações de 39 pinturas e nove esculturas e recursos necessários para a readequação do prédio da antiga rodoviária da cidade.
Os maiores investimentos da Samalon foram no sistema de iluminação, na instalação de um sistema de ar-condicionado central e em dispositivos de segurança, mas Ana Maria Barreto declarou que algumas pessoas que assumiram o museu deixaram quebrar o ar-condicionado central e jogaram fora esse equipamento.
"Eu também tinha trazido um modelo de iluminação igual ao de um museu da Itália e havia pedido que fizessem exatamente igual, mas também arrancaram e jogaram fora", declarou Barreto. "Eu sempre achei que era da maior importância uma cidade como Londrina ter um museu de arte e foi por isso que criamos a Samalon e fizemos a reforma na época. Consegui junto a artistas um acervo muito bom, mas infelizmente depois que algumas pessoas assumiram a Secretaria de Cultura, destruíram o museu", afirmou. Ela ressaltou que o museu é uma coisa imprescindível para Londrina e tem muita gente que curte arte. "Mas hoje ali não se pode fazer exposições noturnas, porque arrancaram a estrutura de iluminação dos quadros. Eu me sinto à vontade para falar que as coisas estão muito erradas. Hoje é uma pena. O acervo está lá, porque registrei em cartório e eles não têm autorização para levar para lugar algum", apontou.
Mas essa reserva técnica do museu também corre riscos. O ar condicionado da sala que armazena os quadros está quebrado. Há dois anos foi criada a Amart (Associação de Amigos do Museu de Arte de Londrina) e o seu presidente Henrique de Almeida Prado Lhamas Ferreira afirma que ela foi constituída para ser o elo entre iniciativa privada e poder público. Ferreira revelou que a Amart conseguiu um ar-condicionado para a reserva técnica, mas ele também quebrou.
"Essa associação foi constituída, mas ainda não foi registrada em cartório e ainda não possui CNPJ. Por este motivo ainda atuamos timidamente, pois nenhuma instituição quer doar algo para uma associação que não tem CNPJ", apontou. Ele afirma que a associação está na correria para conseguir os aparelhos necessários para a climatização.
"Tudo o que a Samalon conseguiu se foi. A nossa luta inicial está em cima do acervo da biblioteca e na reserva técnica das obras. Quando começar a engrenar o trabalho da Amart, acreditamos que esse trabalho irá deslanchar", afirmou. Ele explicou que são 12 voluntários, alguns são professores da UEL (Universidade Estadual de Londrina). "Temos um conselho curador que pode auxiliar o município e também temos um conselho de arquitetura que pode ajudar na questão da manutenção estrutural do prédio", apontou. Ele afirmou que o museu em si já é uma obra de arte. "É um prédio espetacular. Nossa luta é para aproximar a sociedade desse prédio, que muitas vezes é ignorado", ressaltou.
O Secretário Municipal de Cultura Caio Júlio Cesaro ressaltou que a pasta está encarando essa necessidade de atualização da climatização, da iluminação ambiente e do mobiliário. "É preciso uma revisão disso tudo. Nós tínhamos películas nos vidros que já estavam ali há 20 anos e já não tinham mais efeito para filtrar a iluminação e resolvemos retirar. Já tinha acabado sua vida útil e só estava deixando o prédio feio. Temos que analisar se já não existe uma tecnologia mais atual para fazer essa filtragem da luz. Temos a questão do brise- soleil (quebra-sol), que precisa passar por processo de troca. Temos um projeto de restauração do museu pronto, o que não temos é recursos para executá-lo", apontou.
O secretário apontou que encaminhou no ano passado projetos para obter linhas de financiamento em duas iniciativas diferentes. "Um deles foi para o Ministério do Turismo, mas não foi aprovado. Em outubro do ano passado enviamos para o BNDES e também não foi aprovado. A demanda para espaços culturais no Brasil é muito grande e os órgãos que financiam isso não possuem volume de recursos disponíveis para atender todas essas necessidades, mas temos tentado continuamente", argumentou. Ele enalteceu que no fim do ano passado houve uma emenda no orçamento do município em um projeto do vereador Rony Alves para reforma do Teatro Zaqueu de Melo e da Biblioteca Pública Municipal.
"O que foi feito ali, pode ser feito para o museu. Não posso afirmar que isso possa acontecer aqui, mas isso mostra que podemos ter recursos locais para essa reforma", destacou.
Ele argumenta que o prédio tem passado por pequenas manutenções que são realizadas paulatinamente para que não seja preciso esperar 20 anos para realizar uma grande reforma. "Temos dificuldades para a obtenção de recursos e pessoal e estamos fazendo de pouco em pouco. Pintamos as esquadrias, fizemos a limpeza e iniciamos a pintura", apontou.
Lembranças da antiga rodoviária

O início das obras do prédio que hoje abriga o MAL foi há exatos 70 anos, em 1948. Foi o primeiro edifício da fase modernista da arquitetura a ser tombado no Brasil. Seu projeto foi publicado em várias revistas de arquitetura nacional e internacional da década de 50. O tombamento ocorreu em 1974 pela Curadoria do Patrimônio Histórico e Artístico Estadual. A especialista em Patrimônio Cultural e Identidades, Vanda Moraes, relembra que depois que o prédio deixou de ser rodoviária o espaço ficou um tempo parado. "Ele chegou a funcionar um tempo como lugar para venda de artesanato até que foi feita a deliberação para ser um espaço cultural, que foi aberto como Espaço Cultural Vilanova Artigas", lembrou. Embora o prédio seja utilizado como museu, ela aponta que ainda há uma memória muito forte das pessoas em relação ao prédio na função como rodoviária. "Essa memória é tanto das pessoas que transitaram por lá enquanto rodoviária e também dos filhos dessas pessoas".
"Eu sempre me lembro dos dias de tempestade quando o prédio ainda era rodoviária. Como não tinha paredes, quando dava tempestade era complicado. Com a chuva e o vento forte todo mundo se molhava. Todo mundo procurava se refugiar no prédio, mas com o movimento que havia era complicado", destacou.
Ela ressaltou também que há um apego em relação ao prédio, porque quando foi construída era muito diferente de tudo que havia na cidade, com linhas modernas e materiais que não eram muito usuais na época. Criou um impacto grande."
O Secretário Municipal de Cultura Caio Júlio Casaro ressalta que o museu é um marco e uma referência das artes visuais da cidade. "Aqui recebemos mais de 200 exposições e um público registrado de mais de 800 mil pessoas. Isso demonstra a relevância desse espaço enquanto museu de arte para a cidade", apontou. Ele ressaltou que nesse tempo todo o principal destaque é o fato do museu ter abraçado artistas regionais. "Esses artistas puderam ter uma vitrine para expor seu trabalho.
Comemoração terá exposições e feira
O museu realizará diversas ações ao longo do mês para comemorar seu jubileu de prata. A exposição de grafitti "Museu da Rua" conta com nove trabalhos dos artistas Carão, Korneta e Napa e poderão ser vistas até o dia 29 de junho no primeiro piso do Museu. As obras exploram diversos estilos e temáticas, produzidos na técnica "spray sobre tela".
No sábado (12), às 11h, será aberta a exposição de obras do acervo, que inclui telas, gravuras e esculturas recebidas por doação nos primeiros anos de atividade do Museu de Arte. No total, serão 10 telas, 2 gravuras e 7 esculturas.
Também haverá exposição histórica, com apresentação em banners, da trajetória de usos da edificação do prédio. Serão mostrados aspectos da arquitetura modernista do museu e informações sobre seus arquitetos.
Ainda no sábado (12), o Museu de Arte recebe a 26ª edição da Feira Madá, que celebra o Dia das Mães. A feira será na área externa, abaixo dos arcos do prédio, com a exposição e comercialização das produções de artistas, designers e artesãos da região. Durante a feira serão oferecidas duas oficinas gratuitas, de flores de crochê, das 11h às 13h, com Ana Graika, e de criatividade para crianças, das 14h as 16h, com Lia Salvany, voltada para o público infantil a partir de 7 anos.
Acervo tem 624 peças catalogadas
O Museu de Arte de Londrina possui um acervo composto por 624 obras de arte, entre esculturas, telas, gravuras e fotografias, tanto de artistas da região, quanto de renome nacional e internacional. Eventualmente, promove exposições de obras do próprio acervo e recebe mostras de artistas, grupos e coletivos de todo o Brasil.
Também possui um acervo na Biblioteca Especializada em arte Francisca Campinha Garcia Cid, localizada no subsolo do Museu, voltado para história da arte, arte brasileira, patrimônio histórico, fotografia, pintura, desenho e arquitetura. As obras estão disponível para consulta e pesquisa. "Essa biblioteca é especializada em artes e é referência nesse segmento. O londrinense deve se orgulhar de ter uma biblioteca desse nível aqui na região. Ela é frequentada por diversos alunos que estudam artes e gente interessada nesse segmento", destacou Caio Júlio Cesaro.
Além dos serviços de biblioteca, recebe e abriga eventos culturais, feiras voltadas a economia criativa e atividades formativas. O espaço atende um público diversificado, entre alunos, professores, pesquisadores, artistas, produtores culturais e a comunidade em geral. Grupos interessados em agendar uma visita ao espaço ou a exposições podem entrar em contato pelo telefone 3337-6238 ou e-mail [email protected].
Semelhança com projeto de Niemeyer
O prédio da antiga rodoviária é composto por um volume principal em forma de trapézio e uma sucessão de sete abóbadas (arcos) que compunham a garagem dos ônibus. No volume principal havia um restaurante, escritórios, lojas diversas, os guichês e os sanitários. Para equilibrar a composição, os arquitetos adotaram a sucessão de sete abóbodas delgadas, sob as quais ficavam as plataformas de embarque de desembarque de passageiros. Curiosamente a obra é bastante semelhante à obra de um outro arquiteto renomado, Oscar Niemeyer.
Em São José dos Campos existe a biblioteca do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), que possui características semelhantes ao prédio de Londrina, por também ter um prédio em forma de trapézio e também ter uma sucessão de sete abóbadas. Os dois projetos são do fim dos anos 1940. O Secretário Municipal de Cultura Caio Júlio Cesaro aponta que o fato do sistema construtivo ter sido uma novidade, foi adotado por vários arquitetos da época. Alguns anos antes Niemeyer já havia adotado arcos na construção da Igreja da Pampulha.


