São Paulo, 24 (AE) - São Paulo já foi cercada para proteger-se dos índios inimigos. "E por três muros defensivos consecutivos", explica o professor-titular de História da Arquitetura da FAU-USP, Benedito Lima de Toledo. Segundo ata da Câmara, em 1562, foi requerido o término dos muros e baluartes. Segundo ele, há até passagens nas atas criticando a falta de manutenção pelos moradores dos muros feitos de taipa de pilão.
Conforme "História e Tradições da Cidade de São Paulo, volume 1, Arraial de Sertanistas (1554-1828)", de Ernani Silva Bruno, em 1590 há referências a distâncias dos velhos muros, o que leva a crer, pelo seu crescimento, que a cidade tenha tido uma "segunda cinta".
Conforme Toledo, o núcleo de São Paulo de Piratininga, no fim do século 16, era um triângulo formado pelo Colégio dos Jesuítas, pelo Mosteiro de São Bento (1598) e pela Igreja de São Francisco, incluindo a Igreja do Carmo. "Esse formato triangular leva a crer que a cidade cresceu dentro de muros, que tiveram de ser mudados com a sua expansão", explica. "As ruas principais eram São Bento, Direita e 15 de Novembro, que levava à Ladeira Porto Geral, e parte da Boa Vista."
É bem no começo da Rua Boa Vista que um português de outros tempos tenta conhecer melhor essa cidade que o acolheu há quatro anos e meio. "Ando pelas ruas, para sentir o pulsar de São Paulo, num encontro com a história", diz o diretor-geral do Banco Bandeirantes, Antônio Almeida Porto.Ele vê na falta de estacionamento e de segurança alguns dos maiores problemas da região para a atividade comercial. "Mas o acesso é bom para funcionários", diz Porto. "A cidade deveria investir mais na área cultural no centro."
Encontro com a história o pernambucano Antônio Gonçalves também foi procurar no Pátio do Colégio. Aos 66 anos, 47 na capital, ele ainda não conhecia o ponto de fundação da cidade. "Saí de Santana só para isso e adorei", disse apontando o trólebus que passava pela Rua Boa Vista e o fez lembrar-se dos bondes. Prevenido, ele colocou a carteira dentro da camisa. "Não custa tomar cuidado."
Taipa - O material dos muros era o mesmo das casas desde o século 16, a taipa de pilão, feita de terra úmida, sangue de boi e fibras vegetais, misturados e socados. A cobertura de palha só começa a ser substituída por telhas mais de 20 anos após a fundação, em 1575, com a chegada do primeiro oleiro à vila, Cristóvão Gonçalves. Em 1591, o povoado, que não teria mais de 40 portugueses em 1565 e umas quatro quadras de casas rústicas, já tem 140. No fim do século 16, eram 210. Os índios e mestiços não eram contados. Este ano a população vai chegar a 10 milhões.
Na época já havia preocupações com o arruamento e a Câmara empenhava-se em impedir construções erradas ou em locais escolhidos sem critério pelos moradores. Em 1594, já determinava que ninguém armasse casa sem permissão. Em 1610, foram afixadas ordens na porta do Conselho e na Matriz para que todos os moradores caiassem as casas. Isso era feito com barro branco, a tabatinga, que era encontrado onde é hoje a Rua Tabatinguera.
Os moradores dormiam em redes ou catres (leitos toscos e pobres) e só havia uma cama "decente" na cidade em 1620, a de Gonçalo Pires. Nesse ano, o ouvidor Amâncio Rebelo Coelho ia visitar São Paulo e a cidade, muito pobre, não tinha locais nem móveis para acolhê-lo. Decidiram hospedá-lo na Câmara e os vereadores requisitaram a cama de Pires. Ele recusou-se e o móvel foi confiscado.
Outro dado curioso era o abastecimento de água, feito por fontes e ribeirões, que logo se tornaram imundos. Havia também deslizes de comportamento nesses locais a ponto de a ata da Câmara de 1576 determinar punição para rapazes que se achassem na fonte "pegando em alguma negra da terra" (índias). Outras multas são citadas ainda em 1590 e 1613.
Animais - São citadas nas atas de 1623 e 1624 as grandes dificuldades em controlar os animais, como porcos e gado, que andavam soltos pela vila e sujavam até igrejas e mosteiros. Na quinta-feira, bichos menos "entrões" voltaram a ocupar a frente do Pátio do Colégio. Ronaldo Neri, um guardador de carros e catador de latas que mora num prédio invadido da Rua Floriano Peixoto, enfrentava o calor com a cadela Xuxa.
"Vim vender os filhotes", explicou. Eram nove. Cinco machos e quatro fêmeas, mas todos com nomes de jogadores do Corinthians. Pernambucano, ele dormia na rua havia dois anos, quando soube da invasão.
Chuva - As ruas do primeiro século da cidade, sem calçamento, eram problema: ficavam cheias de valetas à menor chuva e os moradores não obedeciam à ordem de limpar as frentes de suas casas. As ruas viviam cheias de mato e lixo, incluindo animais mortos. "Hoje são os camelôs que vendem frutas e deixam a rua na maior sujeira", diz o presidente da Ação Local Boa Vista, o advogado Werner Grau.Ele convive ainda com os menores e adultos de rua que ocupam as imediações, do Largo São Bento ao Pátio do Colégio. "São uns 30", diz. "Temos uma psicóloga que começa a desenvolver um trabalho com eles."
Antes do Mosteiro de São Bento, havia ali uma aldeia de Tibiriçá. Segundo Taunay, ele ajuda a defender a vila de um ataque dos tamoios, em 1562. O cacique foi enterrado na cripta sob a capela do Pátio. Seu corpo foi transferido para a Catedral da Sé. A matriz é construída apenas no fim do século 16. É uma capela acanhada, não onde fica hoje, mas na saída da Rua Direita em direção à Praça da Sé, onde é o prédio da Caixa Econômica Federal. Até 1657 ela ainda não estava terminada. Em 1622, já está feita a igrejinha de São Miguel, na zona leste, um outro aldeamento.
A vila foi se enfraquecendo com a partida as expedições sertanistas, já no século 17, e transformou-se em um grande mercado de escravos. Alguns abandonavam tudo para se enfiar no sertão à procura de índios, esmeraldas e ouro. Conforme Taunay, em 1611, há cenas violentas com relação à servidão de índios, e grande atrito com jesuítas. O mesmo ocorre em 1612 e a "Câmara e o povo negam direito aos padres de intromissão". Em 1621, uma grande bandeira, de Raposo Tavares, traz muitos índios.
Em 1640 os jesuítas são expulsos e voltam 13 anos depois
mas tudo está deteriorado. Fazem uma igreja nova de 1667 a 1671. São novamente expulsos em 1759. As instalações são requisitadas, em 1765, para ser o Palácio dos Governadores. O Pátio virou Largo do Palácio, tornando-se o centro das atividades culturais da cidade. Em 1908, a sede do governo estadual muda-se. Nos anos 50, o terreno é devolvido à Companhia de Jesus, que faz várias obras para devolver as características quase originais do Pátio do Colégio.

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