Municípios do interior de SP costumam transferir mendigos
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quarta-feira, 03 de fevereiro de 1999
Por José Maria Tomazela 
Sorocaba, SP, 03 (AE) - "Exportar" mendigos para outras cidades, como fez o prefeito de Corumbá (MS), Éder Moreira Brambilla, é uma prática institucionalizada no sudoeste de São Paulo. A despesa é paga com dinheiro público. A diferença é que os moradores de rua são bem atendidos e não sofrem agressões físicas, embora sejam "intimidados" com o preenchimento de questionários e ameaças veladas.
O projeto, denominado "Novas Raízes", é coordenado pelo Serviço de Obras Sociais (SOS) de Sorocaba e abrange dez municípios da região, considerada rota de migração. Os serviços de assistência social das prefeituras recolhem os migrantes e sem-teto e fornecem passagens de ônibus ou de trem para que sigam em frente.
Os que manifestam desejo de ficar na cidade, são advertidos sobre o risco de serem presos por vadiagem. Na maioria dos casos
agentes acompanham os migrantes para ter certeza do embarque.
A moradora de rua Marliete Bernardino de Sena, de 37 anos, uma das pessoas que estavam no ônibus de Corumbá, foi atendida pelo "Projeto Raízes" depois de ter sido abandonada na rodovia federal que liga Sengés a Jaguariaíva, no Paraná, segunda-feira. Ela caminhou cerca de 10 quilômetros até conseguir uma carona para Itararé, no Estado de São Paulo. Lá, foi recolhida no albergue local e, depois de contar sua história, inclusive os maus-tratos praticadas pelos guardas municipais de Corumbá, foi mandada de volta.
"Ela foi atendida ontem (terça) de manhã, recebeu banho e alimentação", contou a funcionária do projeto, Rosa Galdino. "Como queria voltar para Corumbá, demos uma passagem até Wenceslau Braz, no Paraná, que é caminho".
Para percorrer outros mil quilômetros até o destino, Marliete terá que enfrentar dezenas de outros percalços, perambulando por albergues ou pedindo carona. Na ficha preenchida com seus dados pelo serviço social de Itararé, consta que Marliete migrou há dois anos de Alagoas e deixou dois filhos menores em Corumbá. Também consta que não teria condições de permanecer na cidade. "As pessoas atendidas são alertadas para não retornar para cá sem dinheiro", disse a secretária de assistência social Cecília Cortez. Os que voltam, são chamados de "reincidentes" e recebem um tratamento diferente. Já não têm direito aos três dias de pousada no albergue e são convidados a deixar a cidade. "Se não dermos outra passagem, eles ficam na rua e começam a incomodar a sociedade", disse Rosa Galdino.
O presidente do SOS de Sorocaba, Lauri Poles, disse que o objetivo do projeto é manter o migrante em sua própria região. Ele informou que as pessoas que chegam de fora são abordadas por agentes em uma van e convidadas a ir para o albergue. "As pessoas já têm uma certa consciência do nosso trabalho e ligam quando avistam um itinerante", disse. No albergue, o mendigo recebe alimentação e é questionado sobre seu destino. "Dessa forma, o itinerante fica intimidado, não fisicamente, mas questionamos a condição dele enquanto ser humano, se quer continuar andando sem destino", disse. A entidade é mantida por convênios com os governos estadual e federal, recebendo também um repasse mensal da prefeitura.


