O mundo vive hoje um momento difícil para que as pessoas exerçam a liberdade de culto. O que se vê é um acirramento em escala global da intolerância religiosa por parte de fiéis mais fundamentalistas, seja no Brasil ou em escala global, por meio de ataques aos locais sagrados para cada religião e ataques a seus símbolos. A reportagem conversou com representantes de diversas religiões e constatou em seus discursos que é preciso focar mais no que une as religiões do que o que as separa: a humanidade. Nesta terça-feira (7) se comemora o Dia da Liberdade de Cultos no Brasil. A data foi escolhida em homenagem à primeira lei criada no Brasil sobre o tema, em 1890, por iniciativa de Demétrio Ribeiro, ministro da Agricultura naquela época. Ela entrou pela primeira vez na Constituição em 1946, quando o escritor baiano Jorge Amado era deputado federal. Hoje este direito está previsto no artigo 5º da Constituição Federal de 1988.

O diretor acadêmico do ISBL e vice-presidente do Conselho de Pastores de Londrina, Vanderlei Frari, afirma que a religião, como espaço de sentido, pode aguçar justamente aquilo que procura combater. “Por motivos torpes, o fiel pode levar sua fé às últimas consequências, mesmo que isso contrarie os princípios da sua fé. Achar que as religiões estão imunes ao radicalismo é desconhecer a natureza humana”, destaca.

Segundo ele, no cerne de todas as grandes religiões, os conceitos de amor, justiça e paz estão presentes, mas nem sempre são observados. “A crosta institucional, os projetos de dominação e a desumanização do outro ofuscam a mensagem central. Tais manifestações devem ser repudiadas pelas religiões e seus líderes e a mensagem central de paz, comum a todas as religiões, deve ser enfatizada com veemência”, enaltece. Segundo ele, é preciso retornar ao núcleo comum da diversidade, que é a condição humana. “Reconhecer a dignidade do outro é essencial. Ao tratar com desprezo as pessoas que pensam e creem de maneira divergente da minha, estou negando os fundamentos da minha própria crença”, aponta.

“Durante os cultos são arremessadas pedras ou disparados tiros contra os terreiros", lamenta  Robson de Ogun
“Durante os cultos são arremessadas pedras ou disparados tiros contra os terreiros", lamenta Robson de Ogun | Foto: Sergio Ranalli

O ogan Robson Arantes, conhecido como Robson de Ogun, vice-presidente da Associação de Ogans de Londrina, classifica a atual fase da liberdade de culto como bastante complicada. “Ela está diminuindo cada vez mais. Não chegou ao extremo que era antes da Constituição de 1988, onde o próprio Estado perseguia as religiões de matriz africana. O museu da Polícia Militar do Rio de Janeiro, por exemplo, possui um acervo afro maior do que o próprio museu voltado à cultura afro-brasileira, porque eles confiscavam tudo”, aponta. Ele aponta que hoje o Estado interfere de outra forma, através da criação de leis por meio de bancadas religiosas que dificultam a liberdade de culto das religiões de matriz africana. “Em Londrina a gente tem caso de médico que não quis atender uma pessoa, porque ela estava com fio de orixá no pescoço. Uma criança também foi impedida de entrar na escola, porque estava em processo iniciático, com pano branco na cabeça”, destaca. Ele cita também o ataque direto aos terreiros. “Durante os cultos são arremessadas pedras ou disparados tiros contra os terreiros. Tivemos casos de carros de frequentadores sendo riscados ou tendo seus vidros quebrados”, destaca. Os terreiros, que ficavam em áreas rurais, com a expansão da cidade acabaram sendo incorporados ao núcleo urbano e isso também gerou problemas, pois alguns alegam que seus frequentadores violam a lei de perturbação do sossego.

“Colocar uma flor diante de uma imagem é um culto e merece todo o respeito", defende o padre Rafael Solano
“Colocar uma flor diante de uma imagem é um culto e merece todo o respeito", defende o padre Rafael Solano | Foto: Vítor Ogawa/Grupo Folha

Em janeiro de 2018 uma imagem do Sagrado Coração de Jesus da Catedral Metropolitana de Londrina foi destruída. O padre Rafael Solano afirma que cada expressão humana é cultural e significativa. “Colocar uma flor diante de uma imagem é um culto e merece todo o respeito. Quando fui à Tailândia, percebi que mesmo nos espaços mais caóticos a cidade existem altares impecáveis. A pessoa passa e faz o mesmo que os católicos fazem quando veem uma imagem de Nossa Senhora”, destaca.

“Nós temos o princípio chamado ecumenismo, que é a comunicação com os diversos. Os cultos devem sempre expressar a paz. Quando alguém me diz em culto à violência, eu digo que isso não é culto. Assistimos horrorizados o que aconteceu no Chile (quando igrejas foram destruídas em novembro do ano passado), com as pessoas desrespeitando os cultos. Independentemente da fé e do credo, nenhuma expressão pode se tornar violenta”, destaca. Segundo ele, alguns cultos estão se tornando violentos e fundamentalistas. “A religião católica propõe o caminho do diálogo. A agressão jamais vai funcionar em um diálogo religioso”, aponta. Ele afirma que por imposição é impossível se aproximar do outro. “Na Revolução Francesa destruíram imagens e igrejas achando que isso acabaria com os cultos. Não. A estrutura é só um espaço”, destaca.

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