Multiplicam-se processos no escândalo do sangue na França Do correspondente Reali Júnior
Paris, 21 (AE) - Os processos judiciários relativos ao escândalo do sangue contaminado com o vírus de aids se multiplicam na França. Depois do julgamento do ex-primeiro-ministro Laurent Fabius e dois outros ministros pela Corte de Justiça da República, a juiza de instrução Marie Odile Bertella-Geffroy decidiu enviar trinta pessoas, inclusive altos funcionários do setor sanitário no momento dos fatos, ao Tribunal do Júri de Paris (Cour des Assises), acusadas de envenenamento, violências voluntárias, não assistência a pessoa em perigo, homicídio e ferimentos involuntários.
Entre eles encontra-se Michel Garreta, ex diretor do Centro Nacional de Transfusão Sanguínea, já condenado anteriormente a 4 anos de reclusão por ter vendido ou permitido a venda aos hemofílicos de concentrados sanguíneos infectados pelo vírus da aids. Agora, o doutor Michel Garretta foi novamente indiciado por "envenenamento". Ao todo, 1.300 hemofílicos e 2.600 pessoas que sofreram transfusões sanguíneas num determinado período (anos 80) acabaram sendo contaminados pelo vírus de aids. Muitas dessas vítimas morreram ao longo desses ultimos 10 anos.
No mês de março deste ano, a Corte de Justiça da República absolveu o ex-primeiro-ministro Laurent Fabius e a ex-ministra dos Negócios Sociais, Georgina Dufoix, acusados de homicídio involuntário. O ex-secretário da Saúde Edmond Herve foi considerado responsável, por imprudência, mas dispensado pela corte do cumprimento da pena mínima.
Essa mesma Corte de Justiça da República, constituída por doze parlamentares e três magistrados, prepra-se para reunir-se novamente para julgar o ex-ministro socialista da Saúde Claude Evin, indiciado por homicídio involuntário. As queixas apresentadas por associações das famílias das vítimas revelam que o antigo ministro, mesmo dispondo de informações, não preveniu as pessoas que haviam recebido transfusões de sangue infectado dos perigos que corriam. Evin, em comunicado, afirma que "as decisões em matéria de prevenção de aids foram decisões de política de saúde pública sobre as quais sempre esteve pronto a prestar contas".
A instrução do novo processo do sangue contaminado na França durou seis anos. Num relatório de 438 páginas, o magistrado retém a qualificação de "envenenamento" apenas para o doutor Michel Garreta, enquanto três outras pessoas são enquadradas em crime de "cumplicidade de envenenamento". A pena prevista para o crime de envenenamento é de 30 anos de reclusão ou prisão perpétua em caso de circunstâncias agravantes. Outras doze pessoas, antigos responsáveis pelo Centro Nacional de Transfusão Sanguínea e médicos que prestavam serviço nesse centro devem prestar contas à Justiça, indiciados por " violências voluntárias".
Outras dezessete pessoas, entre elas o atual presidente do grupo Renault, Louis Schweitzer, na época diretor do gabinete do primeiro-ministro Laurent Fabius, encontram-se entre os indiciados por homicídios e ferimentos involuntários, cuja pena pode chegar a 15 anos de reclusão. A argumentação do juiz se concentrou no atraso na aplicação de um sistema de despitagem sistemática (controle) junto aos doadores de sangue. Para as associações de hemofílicos e das famílias das vítimas, a França vai assistir, agora, o verdadeiro processo do sangue contaminado.
Um outro aspecto desse escândalo está também sendo investigado, o comercial, e que trata do comportamento da Fundação Nacional da Transfusão Sanguínea, organismo público francês que perdeu cerca de 20 milhões de dólares em nebulosas negociações com empresas dos EUA e Suíça. As investigações vão permitir também tornar mais transparente o destino desses fundos.





