Multidão relembra horror do atentado de Omagh
OMAGH, Irlanda do Norte, 15 (AE-AP) - Derramando lágrimas silenciosas sobre horrores inenarráveis, mais de 10.000 protestantes e católicos uniram-se hoje (15) em oração - um minuto antes de se completar um ano do pior ataque terrorista da história da Irlanda do Norte promovido por dissidentes do Exército Republicano Irlandês.
Moradores lotaram completamente as ruas do centro de Omagh. Eles respeitaram um minuto de silêncio em memória aos 29 que morreram e às centenas que ficaram fisica e espiritualmente feridos pela explosão de um carro-bomba no meio de uma multidão de compradores e turistas de fim de semana às 15h10 do dia 15 de agosto de 1998.
Eles rezaram em inglês, gaélico e espanhol pelos mortos, entre eles duas crianças, pais e filhos, mães e filhas, três estudantes da vizinha República da Irlanda, e um professor e um estudante espanhóis.
Eles rezaram também para que o acordo de paz de 1998, que os terroristas esperavam destruir com o atentado, possa ainda ser resgatado de sua crise atual.
Kevin Skelton, cuja mulher Philomena morreu na explosão, afirmou que, se os políticos formarem um longamente postergado governo protestante-católico para a Irlanda do Norte como rezava o acordo, "este seria o maior país do mundo.
"Mas se os problemas continuarem, então eu estou fora", disse ele, explicando que mudaria da Irlanda do Norte "porque eu não vou ver meus filhos passando pelo que eu passei. Não haveria futuro para mim aqui".
Em Londonderry, 50 km ao norte de Omagh, funcionários passaram o dia de hoje limpando destroços de lojas e carros destruídos durante a noite por uma multidão de católicos.
Foram os mais sérios distúrbios na Irlanda do Norte desde o ataque de Omagh, e a última expressão da tensões e ódios crônicos nesta cidade dividida.
Cerca de 300 pessoas, a maioria jovem e muitos usando máscaras, jogaram aproximadamente 100 coquetéis molotov, sequestraram carros e saqueram lojas - parcialmente para registrar a revolta deles com uma marcha protestante que autoridades britânicas permitiram passar pela cidade no sábado, para marcar, também, o 30º aniversário da decisão britânica de enviar soldados de paz para a região.
"Esses que causaram essa desordem deveriam estar envergonhados. Parece ser um insulto deliberado aos mortos e ao sofrimento de Omagh", disse o líder anglicano de Londonderry, bispo James Mehaffey, que participou da cerimônia do lado de fora do tribunal de justiça de Omagh.
Vários dos sobreviventes que perderam partes do corpo ou a visão ou a audição participaram da cerimônia. Outros na multidão continuam a receber aconselhamento contra depressão, ataques de ansiedade e estresse pós-traumática.
Claire Gallagher, uma pianista de 16 anos cegada por estilhaços, disse se considerar sortuda - apesar de admitir que algumas vezes precisa se fechar sozinha num quarto "para um bom choro para tirar tudo isso do meu sistema.
"Sou muito grata, sendo a música minha vida, por ainda ser capaz de tocar. Felizmente, tudo voltou para mim", afirmou ela, que tocou para o presidente dos EUA, Bill Clinton, na Casa Branca em março. "Se eu tivesse perdido um braço ou um dedo ou minha audição, minha música teria se perdido para sempre".
Durante a cerimônia de uma hora, muitos sinos de igrejas de Omagh tocaram e um flautista solitário tocava um lamento. Vários parentes de pessoas mortas em outros atos de violência - incluindo Rita Restorick, mãe do último soldado britânico morto pelo IRA em fevereiro de 1997 - participaram de um simbólico derramamento de água representando as lágrimas derramadas nos últimos 30 anos de banho de sangue.
Mas alguns disseram que o primeiro aniversário do atentado de Omagh apenas trouxe à tona lamentos pelas frustradas esperanças políticas do último ano.
"Tivemos políticos de todos os lados vindo a Omagh e dizendo que iriam fazer com que o acordo da Sexta-Feira Santa funcionasse, que não haveria mais Omaghs", disse Michael Gallagher, que perdeu seu irmão Adrian, de 21 anos, na explosão.
"Mas eles mentiram, eles mentiram. Ao invés de repartir o poder, eles preferem se apegar a posições egoístas, e deixar a paz escapar por seus dedos. Esta seria a mais dolorosa e inexplicável de todas as perdas", afirmou ele.





