Ancara (AE-REUTERS) - Suna e Gulten são ambas mulheres casadas com filhos, ex-professoras com os mesmos modos gentis mas confiantes. O fator que as divide corta como uma faca a sociedade turca. Gulten Celik usa um lenço da cabeça, um elegante e colorido lenço de seda atado na altura da canela por um broche para esconder seu cabelo e fronte.
Nas ruas de qualquer cidade ocidental isso pode passar desapercebido, mas na Turquia o lenço pode ser uma potente demonstração, não apenas de fé muçulmana, mas também de comprometimento com uma outra ordem. "Mulheres que cobrem a cabeça parecem para mim feias e estranhas, como pinguins", disse Suna
Demirkaya, de 56 anos, diz: "Se elas não gostam de nosso sistema deveriam ir para o Irã. Eu pagaria a passagem". Suna usa seu lenço preso ao redor do pescoço, seu cabelo é tingido de loiro, a maquiagem é aplicada com sutileza. Gulten evita a maquiagem porque pintar o rosto não é modesto e usa um longo casaco para envolver seu corpo. Suna prefere uma saia até o joelho. Agora aposentada, Suna está alarmada pelo que ela vê como incursões do Islã dentro do dia-a-dia da vida e da política. Ela se vangloria da imagem de turca "moderna" deixando para trás todos os símbolos da ordem teocrática muçulmana abolida há 75 anos por Mustafa Kemal Ataturk, o fundador secularista da República da Turquia. Ela teme, como outros, o advento de uma nova ordem, talvez até mesmo um regime de lei Sharia, que irá afastá-la das liberdades e independência ocidentais.
Gulten, de 48 anos, que faz campanha pela vitória do Partido da Virtude Islâmica nas eleições que devem ocorrer em breve, parece para ela dar corpo a essa ameaça. De sua parte, Gulten se vê como vítima de uma campanha secularista "insensível" de perseguição que a força a ficar longe da área educacional e de outras do estado.
Sob a constituição a religião e os símbolos religiosos são barrados da vida pública. Gulten, agora líder da ala feminina do partido, foi forçada a deixar suas atividades de professora durante uma campanha prévia contra os lenços de cabeça. "Eu era uma professora muito boa, mas tive que deixar a escola porque fui proibida de usar meu lenço na cabeça... Mas eu nunca parei de trabalhar. Junto com meu marido, falo com as pessoas sobre nossa religião sagrada. Ao mesmo tempo, aprendi o árabe".
Será difícil para Gulten convencer as autoridades secularistas de que seu lenço de seda não tem significado político. "Por que as pessoas nos temem? Fizemos algum ataque terrorista, tentamos mudar o sistema? Se nos cobrimos, a principal razão é que o Corão ordena esta prática e nós obedecemos... É claro que como mulheres queremos parecer bonitas, e os lenços realmente nos servem bem".
Suna, tomando um suco de fruta, não vê razão para confiar em Gulten e em seus semelhantes. Há muito em jogo. No entanto, ela consegue consolo na vigilância do exército secularista. "O dever das forças armadas turcas é proteger esta república", ela diz. "O exército é o único que leva isso muito a sério. Não vejo nenhum político defendendo a república. Eles só estão atrás de votos." Menos de dois anos atrás o exército usou sua considerável influência para retirar o primeiro governo islâmico do poder. O Partido do Bem-Estar Islâmico, que durante sua campanha prometeu uma nova ordem econômica islâmica e perseguiu laços estreitos com estados árabes radicais como a Líbia, foi mais tarde banido em o Virtude, o maior grupo no antigo parlamento, emergiu em seu lugar.
Promotores estão pressionando para banir o Virtude, que faz campanha agora como um partido das massas, conseguindo forte apoio dos pobres, graças a suas alegações de que procura um estado islâmico em solo turco. Gulten faz alusão às esperanças de que os líderes do Virtude nunca irão se expressar publicamente; de que 20% do apoio islâmico nas eleições de 1995 irá encontrar seu eco nas fileiras do exército recrutado. Os generais poderão então ser forçados a rever suas atitudes para com o Virtude. Com isso pode vir um segundo gosto de poder. "Nós estimamos o exército como o lar do profeta Maomé", disse Gulten. A equipe de comando do exército, no entanto, é vigorosa em evacuar todos os proselitistas das barracas e tornou claro que não irá tolerar um governo do Virtude.
Gulten e Suna compartilham de solo comum em suas vidas. Ambas na verdade são muçulmanas, ambas querem uma Turquia unida livre de violências nas ruas e em casa. Ambas casaram em cerimônias religiosas, vêm de famílias secularistas "modernas" e são fortemente influenciadas por seus maridos.
"Meu marido e eu compartilhamos nossas idéias políticas", disse Suna. "Se tivesse casado com outra pessoa, poderia ter outra posição", disse Gulten. "Meu ponto de vista poderia ser bem diferente." Os lenços de cabeça podem explodir em um assunto constitucional quando o novo parlamento se reunir após as eleições de 18 de abril. O Virtude está pela primeira vez recrutando mulheres que cobrem suas cabeças.
O Virtude, cujo programa moderado contrasta muito com a retórica islamista do velho Bem-Estar, está totalmente ciente de que sua chegada ao parlamento com lenços na cabeça será vista por muitos como uma violação do espírito secularista da constituição. Os argumentos de que o lenço é uma questão particular, e não política, podem não ajudar.
A verdade é que o lenço na Turquia é o que quem o usa quer que ele seja. Para as poucas que o usam nas ruas da central Istambul pode ser apenas uma conveniência ou um acessório da moda, para outros uma mostra de devoção. Para alguns, sem dúvida, essa devoção dá uma rara e bem-vinda oportunidade para desafiar publicamente uma ordem secularista instituída constitucionalmente. É político. O estado secularista legisla nessa luta sobre banir o lenço e seu usuário.
Sancione os lenços de cabeça, diz o argumento, e a república de Ataturk pode se afogar em uma maré de obstinação religiosa por toda uma geração. Se nas eleições deste mês o Virtude melhorar significativamente os 21% de votos que ganhou em 1995, um alarme vai ecoar através da instituição secularista.
O aparecimento dos lenços no parlamento irá quase que certamente precipitar alguma forma de crise. Os piores pesadelos de Suna, certos ou errados, parecem estar se tornando realidade. Uma performance mais fraca do Virtude, talvez até mesmo uma divisão no partido com a ameaça de banimento, pode minar a ambição dos militantes do partido, já mais calados do que eram no Bem-Estar.
Mas mesmo um rompimento islâmico não iria assegurar a confiança da instituição secularista em si mesma e na nação. As Gultens da Turquia nunca irão descansar facilmente até sentirem o gosto do poder novamente. As Sunas e aqueles que se levantam com elas, irão pensar muito antes de confiar neles como ministros de Ancara.

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