A psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Mary Neide Damico Figueiró destaca que o fato de o aborto ser considerado crime e prática imoral faz com que as mulheres permaneçam em silêncio. "Cerca de 70% a 80% das mulheres que fazem isso tomam essa decisão sozinhas", relata. "Eu recém concluí uma pesquisa com 10 mulheres que realizaram aborto e 8 delas fizeram uso de um medicamento para úlceras gástricas com efeito abortivo, mas essas mulheres não sabiam quanto precisavam tomar para isso. Elas poderiam até tomar uma dose muito acima do que o organismo pode suportar", alerta.
Os relatos das entrevistadas à professora expuseram que depois de tomar o medicamento, as gestantes começaram a sentir cólicas fortes. "Elas procuraram um hospital e não relataram que fizeram uso do medicamento. Uma das minhas entrevistadas relatou que teve uma hemorragia muito forte. Perdeu muito sangue e relatou um sofrimento muito grande", aponta. Por obter o medicamento de forma clandestina, muitas correm o risco de adquirir medicamento falsificado, alerta a pesquisadora. "Isso pode fazer com que a gravidez avance e, com o feto mais desenvolvido, a mulher corre mais riscos", adverte.
Algumas das pessoas ouvidas pela pesquisadora eram universitárias quando optaram pela realização do aborto. "Isso é uma questão importante a ser apontada. O aborto atinge todas as classes sociais", ressalta. Além do medicamento para úlceras, outro procedimento apontado pelas entrevistadas foi realizar a curetagem em clínicas clandestinas. "Uma das pessoas que ouvi fez o aborto em 2008 e na época pagou R$ 3 mil pelo procedimento. Isso dá uma noção de quanto as clínicas cobram por isso", afirma. No dia 14 de maio deste ano uma mulher de Castro (Campos Gerais), de 31 anos, teve que ser atendida na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário Regional dos Campos Gerais de Ponta Grossa após fazer um aborto. (V.O.)

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