As mulheres são maioria nas universidades públicas e privadas do Paraná. Em 2024, 94.755 estudantes concluíram a formação superior no estado, tanto na modalidade presencial quanto à distância. Dentre esse número, 56.699 são mulheres, o que representa quase 60% dos diplomas entregues no ano. Nos últimos cinco anos, 277.937 mulheres concluíram o ensino superior no Paraná, enquanto no mesmo período 181.201 homens obtiveram a certificação, de acordo com dados do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social).

Idealizadora do Neias (Observatório de Feminicídios de Londrina) e coordenadora do Lesfem (Laboratório de Estudos de Feminicídio), vinculado à UEL (Universidade Estadual de Londrina), Silvana Mariano aponta que a mulher ingressar e concluir o ensino superior representa, ao mesmo tempo, a perspectiva e a aspiração a conquistar melhores posições no mercado de trabalho e, consequentemente, melhores ganhos salariais, assim como representa a conquista de um capital simbólico.

Ela esclarece que, no Brasil, entre determinados grupos sociais, ainda há uma visão de que o homem é superior às mulheres, sendo que elas devem se contentar em estar em uma posição inferior aos companheiros. Situações contrárias, em que a mulher recebe um salário mais alto ou tem mais escolaridade do que o homem, podem ser motivo de conflito entre o casal.

“Um homem formado por essa tradição patriarcal, de que ele deve ocupar a posição superior no casal, se sente inferiorizado quando a mulher ultrapassa o status social que ele tem”, aponta.

A TAREFA DE CUIDAR

Uma das justificativas mais utilizadas pelos companheiros, e que evidencia a cultura patriarcal, é a de que a mulher que se dedica aos estudos estaria abandonando o lar e os filhos. A pesquisadora explica que esse discurso é reproduzido desde a Revolução Industrial, no século XVIII. “A inserção das mulheres naquelas novas ocupações e nos novos trabalhos também foi denunciada, por setores conservadores da sociedade, como um abandono da mulher em relação à casa, à família e aos filhos”, detalha.

Mariano complementa que não existe uma autocrítica, por parte dos homens, sobre o tempo que eles destinam às atividades de cuidado dentro de casa. “Romper com essa lógica sexista, com essa divisão sexual da responsabilidade pelos trabalhos de cuidado, é uma dimensão essencial para mudar a nossa realidade social e para criar condições reais de igualdade entre homens e mulheres”, aponta.

Dados recentes do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apontam que as mulheres gastam, em média, 21,3 horas semanais com o cuidado doméstico e de pessoas, como no caso dos filhos; para os homens, a média é de apenas 11,7 horas. No ano de 2022, as mulheres gastaram cerca de 22 dias a mais do que os homens cuidando das tarefas domésticas. Em horas, são 499 a mais.

A pesquisadora afirma que é muito comum ouvir relatos de mulheres que, através da educação, conseguiram interpretar a sua própria experiência, permitindo identificar situações de violência doméstica ou familiar. “A educação é uma ferramenta muito potente para abrir as portas para que os ciclos de violência possam ser quebrados”, aponta.

Além disso, os anos de estudo também tornam as mulheres mais críticas em relação à sua própria vivência, aos projetos de vida e às relações que estabelecem. “Isso assusta aqueles homens que buscam uma esposa submissa. Assusta aquela parcela de homens que desejam que a sua esposa seja sempre a mesma pessoa que ele conheceu, quando elas, muitas vezes, têm aspirações, desejos, projetos de vida e buscam mudanças. Elas não querem seguir sendo sempre as mesmas”, aponta Silvana Mariano.

PROTAGONISTA DA PRÓPRIA HISTÓRIA

Graduada em administração na Unespar (Universidade do Estado do Paraná) de Apucarana, Sayonara Doraci da Silva, 38, é uma entre tantas mulheres que conseguiram concluir o ensino superior nos últimos anos no Paraná. O caminho até o diploma, entretanto, não foi fácil.

Por diversas vezes ouviu do companheiro, com quem conviveu por cinco anos, que não conseguiria acompanhar os colegas de turma, já que estava há muito tempo longe da sala de aula. As palavras, para desmotivar, tiveram o efeito contrário: serviram de força para seguir no sonho do ensino superior. “Ali foi o pontapé inicial para a virada de chave na minha vida”, afirma.

Ela ficou órfã aos 10 anos, mas ainda lembra com carinho das palavras da mãe: “o mundo pode te tirar tudo, menos o seu conhecimento”. Entre os familiares, o pensamento era outro: ela, que sempre amou ler, chegou a ouvir da avó que “não era nenhuma doutora para ficar lendo livro”. “Aquilo me impactou muito e, de uma certa forma, fez com que eu fosse adiando os meus sonhos”, relata.

Quando contou sobre a aprovação no vestibular para o ex-companheiro, notou uma certa resistência: ele insistia no discurso de que ela não seria mais uma boa mãe para os dois filhos. “Eu sofri muita violência psicológica, muito abuso psicológico”, conta. A educação, para ela, foi a forma encontrada para ser a protagonista da própria vida. “Muitas mulheres são coadjuvantes da história dos outros, mas eu quis ser protagonista da minha história”, relata.

“O ensino superior te abre portas. Ele funciona como uma ponte para a liberdade porque contribui para a autonomia econômica e o fortalecimento da rede de apoio”, diz. “Transforma a percepção que a mulher tem de si mesma, de vítima, para uma profissional capacitada”, frisa.

RELACIONAMENTO ABUSIVO

E foi durante as aulas, ouvindo os professores e estudando para as disciplinas, que Sayonara teve a certeza de que vivia uma relacionamento abusivo. “Eu vi que aquele lugar não me cabia mais, que estava me podando”, relata. Em dezembro de 2025, veio a separação.

“Eu sempre trabalhei muito quando estava com ele e nunca fui tratada como uma esposa, mas como uma funcionária. Eu não tinha direitos, eu tinha obrigações”, relata. Nas últimas semanas de relacionamento, os abusos aumentaram, inclusive com ameaças de morte.

TENTATIVA DE FEMINICÍDIO

No dia 10 de fevereiro de 2026, duas semanas antes da colação de grau, Sayonara da Silva foi vítima de tentativa de feminicídio na esquina da casa em que morava com os filhos. O agressor jogou o carro contra o dela, que estava acompanhada do caçula. Após o veículo colidir contra um poste, ele desceu do carro, apontou uma arma em direção à cabeça dela e disparou. A arma falhou.

Após a tentativa de feminicídio, ele fugiu do local. Quatro meses depois do crime, continua desaparecido. À reportagem, a Polícia Civil informou que segue à procura de Ademar Augusto Crepe. Qualquer informação ou denúncia anônima pode ser feita pelos telefones 181 ou 197.

Ausente na formatura, presente na luta contra a violência

Apesar do medo constante, Sayonara escolheu viver. Ela não pôde estar fisicamente presente no dia da tão sonhada colação de grau, em que seria oradora da turma. Por temer um ataque do ex-companheiro, preferiu não participar da cerimônia nem mesmo com escolta policial.

Mas esteve presente de uma outra forma. Na manhã de 26 de fevereiro, data da colação, escreveu uma carta, que foi lida no evento por uma professora. Essa foi a forma encontrada por ela para dar voz às mulheres que sofrem violências ou tentativas de assassinato e precisam se esconder, com medo de novos ataques.

“Eu tive que me ausentar da minha própria vitória. Os meus quatro anos de graduação foram carregados de luta, de medo, de opressão”, afirma. As palavras escritas naquela carta foram uma forma de mostrar que ela seguia lutando. “Estudar não é rebeldia, é resistência. E escolhi ser resistente.”

“Muito se fala hoje da violência que a mulher sofre, mas ninguém fala do pós, do que a mulher passa depois”, cobra. Segundo ela, são as mulheres que ficam presas após serem vítimas de uma tentativa de morte. Os agressores, por outro lado, caminham livres. “O meu algoz está solto e eu tive que pegar e me esconder. O sistema impõe que você se esconda”, lamenta.

Nos meses que antecederam o atentado, Sayonara estava no processo seletivo para o mestrado em economia na UEM (Universidade Estadual de Maringá). No mesmo dia da colação de grau, recebeu a notícia da aprovação no curso.

“Quando a mulher em situação de violência se forma, ela não muda apenas a própria vida, ela muda a referência de futuro para os seus filhos porque interrompe a naturalização do abuso na família. O conhecimento é o único patrimônio que o agressor não consegue confiscar e destruir. Foi o que aconteceu comigo. Eu fui uma pessoa transformada pela educação”, relata.

A MISSÃO DO PROFESSOR

Carine Maria Senger foi a professora que leu a carta da estudante durante a colação de grau. O sentimento, segundo ela, foi agridoce. “Me senti triste por saber que uma estudante exemplar, comprometida com sua formação, não pôde comemorar sua conquista em um momento tão especial. E, ao mesmo tempo, honrada por poder representá-la nessa cerimônia, sendo esta uma forma de reconhecimento do vínculo construído no ambiente acadêmico”, relata.

Senger acredita que o papel do professor vai além da transmissão de conteúdos. “A universidade é também um espaço de acolhimento, desenvolvimento humano e construção de vínculos. O professor acaba sendo uma referência na trajetória dos discentes, que podem se identificar de alguma maneira, especialmente em momentos de dificuldades e superação. São relações construídas no cotidiano universitário, por meio da convivência, da escuta e do incentivo ao crescimento pessoal e profissional”, afirma.

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Hoje, a docente ministra aulas das disciplinas de metodologia científica e responsabilidade socioambiental para os estudantes do curso de administração. No dia a dia, reforça que a violência contra a mulher é um assunto que pode ser abordado de maneira transversal no ambiente universitário, principalmente quando são trabalhadas questões relacionadas à dignidade humana, relações sociais e responsabilidade coletiva.

“A universidade também cumpre um papel fundamental na formação crítica dos discentes, contribuindo para que reflitam e, se for o caso, reconheçam situações de violência, desigualdade e violação de direitos”, garante. Para a professora, o ensino superior pode representar não apenas uma formação profissional, mas também o fortalecimento pessoal, acesso à informação, ampliação de perspectivas e construção de redes de apoio.

“Para muitas mulheres em situação de violência, a universidade pode se tornar um espaço de reflexão, acolhimento, desenvolvimento e reconstrução de projetos de vida. Além disso, o acesso à educação contribui para o empoderamento, para a independência e para o reconhecimento de direitos, elementos fundamentais no rompimento de ciclos de violência”, finaliza.

Uma história de resistência

A trajetória de Maria Silva (nome fictício), 36, cujo nome verdadeiro não vai ser publicado por questões de segurança, até a formação em direito na Faculdade Pitágoras também envolveu muito mais do que apenas o estudo. “Foi uma história de resistência. Eu lutei muito para conseguir ser o que eu sou hoje.”

Ela conheceu o antigo companheiro com apenas 15 anos. A relação com ele, três anos mais velho, nunca foi tranquila e saudável. Era marcada por conflitos, brigas e traições. Pais de uma menina, quando Silva decidiu que gostaria de retomar os estudos para ingressar no ensino superior, também ouviu que nunca conseguiria, ainda mais com uma filha pequena para cuidar.

“Nunca houve uma proibição formal, em que ele disse que não me deixaria ir, mas, em compensação, ele nunca me ajudou com absolutamente nada para que eu conseguisse progredir na vida”, explica. Segundo ela, nas entrelinhas, ele tentava fazer com que ela não acreditasse que seria capaz de se formar.

Apesar disso, conseguiu uma bolsa de 100% para começar a cursar direito no início de 2015 através do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). “Eu tinha que trabalhar, estudar e cuidar dela”, conta. Sem rede de apoio, ela levava a filha para a faculdade quase todos os dias. Durante as aulas, o companheiro ligava inúmeras vezes. “Já teve vezes de ele me ligar 53 vezes. Ele ficava o tempo todo me ligando.”

Com o tempo, as brigas começaram a se intensificar até o momento em que se separaram, o que deu ainda mais motivação para que ela concluísse os estudos.

Silva conheceu o atual marido e teve o segundo filho em 2018, quando precisou trancar o curso no quarto ano da faculdade, mas retomou poucos anos depois para concluir o tão batalhado curso de direito. “Pouco antes de eu me formar, ele me ligou e disse que eu não podia me graduar, que ele não permitia que eu me graduasse. Foi a primeira vez que ele falou com todas as letras”, relembra. “Ele disse que eu já me achava sendo uma pessoa comum e se eu fosse uma pessoa formada ele sabia que eu nunca voltaria com ele”, conta.

DIVISOR DE ÁGUAS

“O ensino superior foi o divisor de águas na minha trajetória”, afirma. Ela colou grau em 2022 e, no final do ano, quando iria fazer o exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ele entrou na Justiça para tentar a guarda da filha, com inúmeras alegações, inclusive de alienação parental. “Ele me disse que estava fazendo aquilo porque sabia que eu iria ficar desestabilizada e não teria psicológico para fazer a prova”, relata. Ela reprovou na primeira tentativa, mas conseguiu a aprovação em fevereiro de 2023.

Segundo Silva, o ex-companheiro sabia que quanto mais ela estudava, mais se distanciava dele. “Ele queria que eu ficasse estagnada junto com ele. Tentava me colocar num cabresto para que eu só tivesse a visão de mundo que ele tinha”, complementa.

Hoje, a vida compartilhada com o atual companheiro é muito diferente, com ele sendo um impulsionador para que possa alçar voos cada vez mais altos. Para a filha mais velha, a formação acadêmica da mãe é motivo de orgulho. “Ela fala com um brilho nos olhos para os outros que a mãe dela é advogada”.

Hoje, Maria Silva atua no Numape (Núcleo Maria da Penha), vinculado à UEL, que busca devolver a dignidade de mulheres vítimas de violência através do acompanhamento jurídico, como previsto pela lei. “Nós fazemos o acompanhamento desde o momento em que a denúncia é feita até o momento da oitiva da vítima durante a audiência”, explica, citando que, além da ação penal, o núcleo oferece apoio para que sejam feitos o divórcio e a partilha de bens. Para além do apoio jurídico, o Numape também disponibiliza atendimento psicológico às vítimas.

Cursinho abre portas para jovens da periferia

Lua Gomes é a idealizadora do Cursinho Vista Bela, que nasceu em 2018 com o objetivo de levar a população da periferia para dentro das universidades. Até agora, ao menos 120 pessoas passaram pelo cursinho, tanto entre aquelas que tinham o objetivo de ingressar no ensino superior por meio do vestibular quanto as que desejam concluir o ensino médio por meio do Enem e do Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos).

O cursinho atende a todos, independentemente de gênero e idade, mas com um olhar mais atento às mulheres periféricas. “Elas querem mudar sua trajetória e de suas famílias a partir da educação. Acreditamos que a periferia é o espaço onde se encontram as pessoas responsáveis pelo funcionamento da sociedade e da economia do nosso país. E a maioria das famílias brasileiras hoje é conduzida por mulheres”, afirma.

Lua Gomes afirma que a sociedade segue oprimindo as mulheres, o que é ainda mais grave para aquelas que vivem nas periferias, sendo que muitas não conseguem nem mesmo identificar que são vítimas de violência dentro de casa. “Para nós já é um grande passo poder construir caminhos melhores a partir do diálogo e da reflexão coletiva ”, reforça.

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