Os versos de ''Maria, Maria'', de Milton Nascimento, deram o tom à abertura do 1º Encontro Municipal de Mulheres Negras, ontem pela manhã, na Câmara de Vereadores de Londrina. De pé e com palmas, as cerca de 80 participantes do evento mostraram, cantarolando a canção, ''força, raça e gana'' para discutir as inúmeras faces da discriminação sofrida por elas no dia-a-dia.
''É lindo ver que hoje temos espaço na Câmara de Vereadores quando há tão pouco tempo só tínhamos espaço nas cozinhas das madames. É bom saber que as negras, antes reduzidas a objetos sexuais, podem agora discutir seus destinos e seus direitos'', desabafou a representante do Conselho Municipal da Comunidade Negra, Vilma Santos de Oliveira, durante o cerimonial de abertura.
O vereador Maurício Barros lembrou que, dos 21 representantes na Câmara, apenas três são mulheres; nenhuma delas negra. Já a presidente do Conselho Municipal da Mulher, Roseli de Moraes, atentou para a necessidade de se conquistar bem mais do que um lugar de protagonista de novela. ''Em pleno século 21, as mulheres ainda têm que brigar por cotas na Câmara e no meio político em geral'', observou. ''Temos comprometimento, capacidade e militância suficientes para apontar, aqui, políticas públicas de melhorias da qualidade de vida das mulheres negras em Londrina, no Paraná e no Brasil'', disse a secretária municipal da mulher, Maria José Barbosa.
Antes de discutir as possíveis ações para viabilizar as mudanças necessárias, atividade programada para o período da tarde, as participantes conheceram mais a fundo as origens e as estatísticas da discriminação racial no Brasil, ouvindo a palestra da professora Maria Nilza da Silva, doutoranda pela PUC/SP. ''As mulheres negras estão na base da pirâmide social'', ressaltou.
Segundo ela, pesquisas feitas na capital paulista revelaram que 43% das mulheres negras, com idade até 24 anos, estavam desempregadas em 2002. Das pardas com carteira assinada, apenas 0,3% ganhavam mais de 20 salários mínimos. A esmagadora maioria 60% recebiam, no máximo, um salário mínimo. E desvantagem não fica apenas no terreno profissional. ''Conforme dados do IBGE, quanto mais escura for a sua pele, menores são as chances de a mulher encontrar um parceiro matrimonial'', informou a professora.

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