Mulheres dependentes químicas precisam de atenção específica, diz pesquisadora
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quarta-feira, 11 de agosto de 1999
Por Clarissa Thomé 
Rio, 12 (AE) - Uma pesquisa da psicóloga Sílvia Brasiliano com mulheres que têm dependência química contraria o senso médico de que elas não reagem ao tratamento contra o vício e por isso acabam abandonando o atendimento.
Ela coordena há dois anos e seis meses o Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (USP), por onde já passaram 220 mulheres - 65% delas continuavam em tratamento depois do primeiro ano. Em programas mistos, para homens e mulheres, todas haviam abandonado o atendimento após esse período.
As mulheres dependentes químicas têm chance de recuperação, segundo Sílvia, mas precisam de atenção específica. "A literatura médica diz que a mulher dependente se trata por pouco tempo ou não reage ao tratamento, na verdade, é muito difícil para ela lidar com dois estigmas, o de ser mulher e dependente de drogas", afirma a psicóloga.
Ela apresentou o resultado da pesquisa hoje no 13º Congresso Brasileiro de Alcoolismo e Outras Dependências, no Hotel Glória.
Sílvia credita o êxito do Promud à equipe de trabalho, predominantemente feminina. "Elas se sentem mais aceitas, menos estigmatizadas", diz. A psicóloga observa que as pacientes começam a usar drogas na mesma faixa etária que os homens, mas chegam em programas de recuperação mais cedo. "Isso nos dá a idéia de que a progressão da dependência nas mulheres é mais grave", afirma.
As mulheres em busca de tratamento no Promud dividem-se em dois grupos. Sessenta por cento delas são usuárias das chamadas drogas lícitas (álcool e calmantes) e têm em média 43 anos. O restante é formado por mulheres mais jovens, cerca de 27 anos, e 63% delas são viciadas em cocaína - a maioria sob a forma de crack.
O perfil das dependentes mais velhas é de mulheres solitárias, donas de casa, que já passaram por programas de recuperação. O vício cresce por volta dos 32 anos. "Elas bebem à tarde, quando filhos e maridos estão na escola, na tentativa de esconder a dependência", diz Sílvia.
"Algumas chegam a tomar álcool de limpeza, diluído em sucos, por vergonha de comprar bebida".
As mais jovens começaram a se drogar por volta dos 18 anos e o aumento da dependência ocorre quatro anos mais tarde. Elas terminaram o ensino superior, mas estão desempregadas. Há histórias de prostituição e de mulheres que vivem nas ruas. "Nesses casos mais graves, oferecemos a internação como alternativa para mantê-las o mais longe possível do vício", afirma.


