A vida de 45 mulheres de distritos e zona urbana de Londrina tomou um novo rumo de uns meses para cá. Reunidas na casa da presidente da Associação de Mulheres do Patrimônio Selva, Maria José Teixeira Lopes, elas estão aprendendo a arte de trabalhar com fibras do caule da bananeira. Trançadas em teares desenhados por dona Maria José e construídos por um de seus filhos, as fibras podem se transformar em bolsas, esteiras, mochilas e uma porção de objetos de artesanato.
No momento, as artesãs-aprendizes estão com a atenção e esforços concentrados no atendimento a uma encomenda especial: a confecção de 500 bolsas para serem distribuídas aos participantes da Conferência Anual da Network - Desafios de Sistemas de Saúde orientadas para a atenção primária, que será realizado em Londrina de 20 a 25 de outubro. Por cada bolsa, as artesãs receberão R$ 9,00. Assim, ao mesmo tempo em que aprendem, garantem um reforço no orçamento doméstico. Muitas delas passam boa parte do dia no barracão em que dona Maria José ministra o curso. Entre um 'causo' e outro, as bolsas vão tomando forma nas mãos de muitas mulheres que até pouco tempo passavam o dia manuseando enxadas na roça.
Adelina dos Reis Volsi, 66 anos, deixou o trabalho na lavoura há cinco anos. Viúva, recebe uma pensão deixada pelo marido no valor de um salário mínimo. Ela é vizinha de dona Maria José e, após ver algumas bolsas prontas, achou o trabalho bonito. No início da semana passada decidiu se juntar às artesãs. ''Resolvi aprender e estou gostando. Agora, posso até demorar para terminar uma bolsa, mas não paro mais não'', diz ela, que ainda tem pouca intimidade com o tear.
Marina de Almeida, 61 anos, achou que não iria gostar de passar horas trançando fibras. Mas bastou começar para ver que levava jeito para a coisa. Um mês e meio depois do primeiro encontro com a nova atividade, ela é hoje uma das alunas que mais produzem bolsas.
Marina viaja 30 minutos diariamente do Terminal Acapulco (zona sul de Londrina) até o Patrimônio Selva, onde passa o dia. Em oito horas de trabalho, consegue iniciar e concluir uma bolsa - às vezes, ainda deixa a base de outra pronta. ''É quem mais produz aqui'', elogia dona Maria José. Marina conheceu o trabalho através de dona Maria José, que a convidou a participar do curso quando recebeu a encomenda das bolsas. ''No começo vim só para conhecer. Acabei gostando'', diz ela.
O trabalho com as fibras da bananeira não só tem contribuído financeiramente, como tem preenchido um vazio que passou a fazer parte da rotina de Marina após fechar o armarinho que mantinha no conjunto Ouro Branco. ''Trabalhei a vida inteira. Fiz crochê, costurei por 30 anos e depois abri o armarinho. Quando fechei o comércio, ficava muito ansiosa, principalmente naquelas horas que estava acostumada a ir trabalhar'', conta. O que está aprendendo, Marina está ensinando ao marido - também aposentado - que tem um tear em casa para ajudá-la na produção das bolsas. Ela já concluiu 10 delas - isso porque fraturou o pé recentemente e foi obrigada a ficar 20 dias 'de molho' em casa.
Para outra aluna moradora do Patrimônio Selva, Teresa Maria de Jesus, 69 anos, o novo ofício trouxe de volta a alegria de viver. Ela estava passando por uma depressão e tinha deixado de frequentar a escola da localidade, onde aprendia a ler e escrever. ''Só tinha vontade de chorar. Pensava comigo: - já estou nessa idade, não tenho futuro nenhum. É hora de deixar o lugar vago para outro'', conta.
Mas resolveu sair de casa para conhecer o trabalho com fibra de bananeira e hoje diz que deve a isso ter saído 'daquela tristeza'. ''Vou no curso, converso com as outras mulheres, a gente conta causos, dá risada'', diz. Quando está em casa, Teresa senta com seu tear no terreiro e passa boa parte do tempo trançando bolsas. ''Estou animada também com o dinheirinho que vou ganhar. Mesmo não sendo muito, dá para inteirar para pagar as contas.''
O trabalho com fibra de bananeira também trouxe ânimo novo para Vicente Lopes, marido de dona Maria José. Acostumado a levantar cedo e trabalhar o dia inteiro da lavoura, ele se viu, de uma hora para outra, parado devido a um princípio de derrame. Sem forças para enfrentar o trabalho pesado do campo, seo Vicente passava os dias inativo. Agora, é o responsável pela preparação das fibras. Ele corta os pés de bananeira levados pela Secretaria Municipal da Agricultura à casa do casal, corta as fibras e as coloca para secar. ''Tem dia que levanto às 6 horas e trabalho até oito, nove horas da noite. É uma beleza'', diz.
Vicente Lopes está até se aventurando pelo mundo do artesanato. Ele mesmo construiu um pequeno tear e está tentando fazer um novo modelo de bolsa. ''Ele está fazendo sozinho porque não tenho tempo de ensiná-lo'', diz dona Maria José.

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