Tóquio (AE-AP) - Raelyn Campbell tinha ouvido sobre a segurança das ruas de Tóquio e a eficiência de sua polícia. Logo após chegar ao Japão, porém, ela entrou em contato com outra realidade: a expectativa de que as vítimas de crimes sexuais fiquem caladas.
Apesar de o Japão ter alcançado muitos avanços na direção da igualdade entre homens e mulheres nas últimas décadas, especialistas dizem que mulheres que sofrem violências sexuais geralmente lidam com um velho problema: um sistema de justiça que não é simpático ao problema e uma sociedade que responsabiliza a vítima.
Raelyn percebeu esses obstáculos. E porque ela não é japonesa, assistentes sociais e ativistas dizem que seu caso é típico, exceto pelo fato de ela insistir em justiça e querer falar sobre o assunto.
Um homem seguiu Raelyn até seu apartamento, atirou-a contra a porta e tentou molestá-la. Ela lutou com o atacante, que acabou preso.
Mas quando a norte-americana tentou processá-lo, a polícia atrapalhou seus propósitos. Quando os promotores se encarregaram do caso, sugeriram que o caso fosse deixado de lado porque o homem que a atacou, e confessou o crime, não tinha antecedentes e ajudava a sustentar os pais. Ele terminou tendo sua sentença suspensa.
"Como regra geral no Japão, crimes sexuais não são encarados como crimes sérios", diz Raelyn, mais de um ano após o ocorrido.
Por causa do estigma dos crimes sexuais, até mesmo a avaliação da situação é extremamente difícil, diz Kiyomi Takahashi, conselheira da União Japonesa para Sobreviventes de Trauma, um centro de apoio para vítimas de crimes sexuais.
"Mulheres vítimas de crimes sexuais são consideradas sujas", diz Takahashi, que foi abusada sexualmente quando era criança. "Como mulheres, elas são consideradas sem valor."
Apenas 6.124 estupros e ataques de caráter sexual foram registrados no Japão em 1998, as mais recentes estatísticas disponíveis.
De acordo com os dados da polícia, em 1997 ocorreram aproximadamente seis desses crimes para cada 100.000 pessoas com idade acima de 15 anos.
Para efeito de comparação, ocorreram aproximadamente dois estupros ou ataques registrados para grupos de mil pessoas com idade acima de 12 anos nos Estados Unidos em 1998, de acordo com o Departamento de Justiça norte-americano.
Pessoas que acreditam no sistema japonês de justiça afirmam que pelo menos parte da lacuna estatística é devido à incidência genuinamente baixa de incidentes desse tipo.
Mas pesquisas indicam uma alta incidência de crimes sexuais. Mais de 80% das 459 mulheres de Tóquio que participaram de uma pesquisa divulgada no ano passado, disseram ter passado por algum tipo de ataque sexual, de abuso sexual verbal a estupro.
A pesquisa foi conduzida por Makiko Sasagawa, conselheira do Instituto Médico Santa Marianna, próximo a Tóquio, e Takako Konishi, psiquiatra da Universidade Feminina Musashino de Tóquio.
Dentre as várias formas de ataque, a molestação de mulheres nos trens urbanos é provavelmente a mais comum. Cerca de 80% das 1.553 mulheres que participaram da pesquisa realizada pelo governo de Tóquio em 1997, disseram que haviam sido impropriamente tocadas pelos menos uma vez nos trens da cidade.
O problema é tão grave que os operadores do metrô pensaram em reservar carros onde homens não fossem admitidos. Mas reclamações formais são relativamente raras.
"Há, provavelmente, passageiras que não reportam os incidentes para as autoridades nas estações, mas simplesmente deixam o trem e esperam pelo próximo", diz Eiichi Okazaki, porta-voz da Autoridade de Trânsito Rápido Teito, a maior operadora de metrô do país.
Muitas vítimas femininas de ataques sexuais sentem que não devem levar o caso à polícia porque não se trata de algo sério o suficiente para uma reclamação formal, de acordo com um estudo organizado por John P.J. Dussich e Sugao Shinohara da Universidade de Tokiwa.
As mulheres também evitam a polícia porque sentem que os oficiais homens não entenderiam sua dor. Porém, inspiradas em movimentos similares organizados nos EUA e na Europa, ativistas vem recentemente começando a organizar centros de apoio para ajudar as vítimas a lidarem com a angústia e a ensiná-las a tomar medidas legais.
O número de novos casos registrados no centro de aconselhamento da Universidade Médica e Odontológica de Tóquio aumentou de 30, em 1993, para 362 em 1988, diz Konishi, que trabalhou no local até o ano passado.
Apesar do centro ajudar vítimas de qualquer tipo de crime, Konishi disse que mais de um terço dos casos eram relacionados a ataques e abusos sexuais. Um crescente número de vítimas procura ajuda pelos serviços telefônicos da entidade.
O serviço telefônico da polícia municipal de Tóquio para vítimas de crimes recebeu 746 ligações em 1998, mais de sete vezes o número registrado seis anos antes.
"As vítimas sentiam que tinham de engolir sua dor", diz Sasagawa, o conselheiro do Santa Marianna. "Agora, muitas sentem que a recuperação psicológica é um direito".