Mulher se destaca no mundo do crime
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 1997
Andreia Maia 
Agência Estado, do Rio
Arquivo FolhaAnjo mauNo Rio, mulheres de classe média assumem o crime organizadoMulheres acima de qualquer suspeita estão na mira da polícia carioca. As autoridades policiais foram surpreendidas, nos últimos meses, com o crescimento do número de mulheres envolvidas em dezenas de assaltos a bancos, tráfico de drogas e sequestros. Louras ou morenas, bem vestidas e charmosas, e até poliglotas, elas recorrem a vários truques para driblar a polícia. No início deste ano, a estudante Jacqueline Cunha Caldas, a Loura Perigosa, de 25 anos, filha de empresário, foi presa e acusada de liderar uma das mais perigosas quadrilhas de assaltantes a bancos da cidade.
O caso de Jacqueline intrigou a polícia. Filha de classe média, Jacqueline domina fluentemente vários idiomas, entre eles inglês, francês e espanhol. Educada e culta, gosta de ler livros de ação, suspense e esotéricos, como do escritor Paulo Coelho. Mãe de uma menina de 8 anos, a Loura perigosa sempre foi vista pelos amigos como uma pessoa bondosa, meiga e de bom caráter.
Para a polícia, Jacqueline é perigosa, calculista e fria. Ela é capaz de colocar uma arma na cabeça de uma criança e matar sem piedade disse a policial Cátia Maria, da Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos contra Estabelecimentos Financeiros, onde Jacqueline está presa.
O diretor da DRRFCEF, delegado Alcides Iantorno de Jesus, disse que a prisão de Jacqueline revelou a participação de mulheres cultas e bem articuladas em assaltos a bancos. Em menos de um ano, o delegado registrou o envolvimento de pelo menos 20 mulheres liderando as quadrilhas de ladrões de banco nas zonas sul e norte da cidade. Desse total, apenas quatro foram presas. Elas são simpáticas, usam roupas decotadas e curtíssimas para trair a atenção dos vigilantes esclarece Jesus.Essas mulheres, criminosas, também usam outros artíficios além de dotes pessoais.
No ano passado, por exemplo, uma senhora de 75 anos, participou de assalto, com um grupo de cinco homens, à agência do Banco do Brasil, em Botafogo, na zona sul. Sem despertar suspeita, ela conseguiu entrar na agência portando um revólver, que foi utilizado pelos assaltantes que já estavam no interior da agência. Em dezembro, uma mulher empurrando um carrinho de bebê enganou os vigilantes de um banco, no centro da cidade, e repassou as armas aos seus cúmplices.
De acordo com estatísticas da DRRFCEF, foram roubados pelas quadrilhas de ladrões de bancos, nos últimos dois anos, cerca de 50 milhões. Desde o início do ano, 50 agências bancárias foram assaltadas no Rio. Em 1996, ocorreram 298 assaltos, dos quais 40% tiveram participação direta ou indiretamente de mulheres.
Mulheres também atuam no comércio de drogas em boates e pontos frequentados pela juventude carioca. Durante a maior apreensão da droga ecstasy - 1053 comprimidos - no Brasil e realizada pela polícia fluminense, em janeiro passado, duas mulheres de classe média e bem-sucedidas foram presas no Rio. Andrea Paixão de Almeida Silva, de 45 anos, e Carla Esteves de Azevedo Guedes, de 41 anos, acusadas de integrar uma quadrilha responsável pela distribuição da droga nas boates cariocas e paulistas. Além do Rio de Janeiro, o grupo tem ramificação em Amsterdã e São Paulo.
Atraentes e charmosas, as duas e sua cúmplice, a holandesa E. Senese, de 26 anos, que também foi presa, não levantavam suspeita de quem as encontrasse nas boates das duas cidades. Uma denúncia anônima revelou à polícia a existência da quadrilha no Rio.
Nas favelas e morros cariocas, as mulheres - adolescentes e jovens - disputam, segundo a polícia, o controle das bocas-de-fumo lado a lado dos grandes traficantes. As ocorrências policiais nas favelas da cidade constataram essa realidade. Um exemplo da nova fase do crime organizado foi a prisão da menor A.C.B, 13 anos, grávida de cinco meses, há cerca de 15 dias, envolvida com o tráfico de drogas e apontada pela polícia como líder de uma quadrilha.


