Curitiba - Pouco mais de 24 anos após ser deixada, aos sete meses, na portaria de um hotel no centro de Curitiba, a vendedora de cosméticos Patrícia Dias de Souza realizou ontem o sonho de conhecer sua mãe biológica. O reencontro com a dona de casa Ticiane Borges, de 40 anos, aconteceu na casa onde a jovem mora, no bairro Cajuru, e foi viabilizado graças às investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Tráfico de Pessoas, da Câmara dos Deputados.
Emocionada, Patrícia abraçou a mãe e disse perdoá-la. "Tenho uma filha de 1 ano e uma de 4, quase 5. E quando eu fui mãe, tive apoio da minha família, do meu marido, da família dele. Não sei como é a história dela. Não posso julgá-la pelo que aconteceu. A gente vai sentar, vai conversar e ela vai me contar o que se passou", declarou Patrícia.
Ticiane explicou que teve Patrícia com 16 anos, quando namorava um homem mais velho, na época desempregado. Ambos foram morar com os pais dele, em Concórdia (SC), onde a menina nasceu. No entanto, a convivência ficou difícil e ela acabou retornando a Curitiba.
"Nós não tínhamos condições de criá-la. Então eu achei melhor entregá-la a alguém que pudesse. Só pedia a Deus para que ela fosse protegida de todos os males. Mas no meu coração havia um lugar vazio", afirmou.
A dona de casa percorreu 620 quilômetros de Garibaldi (RS), onde mora com outras duas filhas e dois netos, para reencontrar Patrícia.
A jovem contou que descobriu ter sido adotada aos 10 anos e que, desde então, nunca deixou de procurar a mãe biológica. O irmão Marcos Souza, de 51 anos, foi quem entrou em contato com a CPI e a ajudou a encontrar Ticiane.
"A minha vida atrasou muito a partir do momento que descobri (a adoção). Foi muita mágoa, pois eu era adolescente. Mas agora só quero entender o que aconteceu e começar viver", completou Patrícia.

Investigações
De acordo com o deputado federal Fernando Francischini (PEN-PR), vice-presidente da CPI, as investigações começaram há três meses, quando a CPI chegou ao Paraná. "No início, a suspeita era de tráfico de crianças. Por isso, o processo ficou conhecido internamente como 'Caso Aisha' (em referência à personagem adotada ilegalmente na novela Salve Jorge, da Rede Globo). Depois, porém, descobrimos que a certidão de nascimento era falsa e que não existia sequer processo da adoção. Foi uma adoção à brasileira. Mas mantivemos o nome, porque é simbólico."
O mais difícil, segundo ele, foi rastrear uma pessoa de família humilde, muito simples, que não tem veículos em seu nome ou declaração de Imposto de Renda. "Mas a Polícia Federal (PF) foi muito parceira e apoiou a CPI para encontrar a certidão verdadeira e nos proporcionar esse momento."

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