Mulher que teve olho arrancado doa córnea
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sábado, 14 de dezembro de 2013
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina O sorriso no rosto em nada combina com o ano que passou a dona de casa Maria de Lourdes Dechechi, de 47 anos. Em março, ela perdeu o pai. Três meses depois, o marido, vítima de cirrose. No dia 2 deste mês, quando imaginava que a cota de desgraças de 2013 já estava vencida, sofreu um duro golpe: teve o olho direito arrancado pelo filho mais novo, Anderson, de 17 anos, que sofre de transtornos mentais. Como o globo ocular estava intacto, ela resolveu doar a córnea para transplante, realizado no dia 5.
Com motivos de sobra para lamentar, ela segue em frente. "Temos que nos preparar para as adversidades, pois a vida não é só alegria", aconselhou. Ao ouvir o filho mais velho lamentar "outro golpe", ela o repreendeu: "Deus sabe o que faz". Católica fervorosa, agradece a boa saúde todos os domingos na capela São Luiz Gonzaga, a uma quadra da casa dela, no Conjunto Giovani Lunardelli (zona leste de Londrina).
Maria de Lourdes conta que, após o filho ter puxado o olho com as mãos, ela desmaiou e acordou no hospital. "Como estava de óculos, achei que o vidro tinha cortado o olho. Só depois fiquei sabendo que o globo ocular havia sido arrancado por inteiro", lembrou. Em seguida, ao ouvir dos médicos a possibilidade da doação da córnea, aceitou sem titubear. As córneas do marido já haviam sido doadas. "São três olhos a enxergar as coisas boas da vida", orgulhou-se.
Sem o conhecimento de medicina, a dona de casa concordou com o transplante, porque, em seguida, alguém doaria outro para ela. "O momento mais triste foi quando o médico falou que eu nunca mais iria enxergar com a vista direita. Naquela hora foi um choque, mas logo reuni forças e me conformei", contou.
O oftalmologista Noboru Yagui explicou que o olho não pôde ser reimplantado porque todos os nervos óticos se romperam. "É um caso raro de doação de córnea por paciente vivo. Como para ela não serviria mais, pelos danos nos nervos óticos que não podem ser religados, a córnea foi transplantada em outra pessoa", explicou. Pela lei nacional de doação de órgãos, a identidade de quem recebe os órgãos não é revelada.
A única tristeza de Maria de Lourdes é quando lembra dos comentários maldosos feitos sobre o filho na internet. "Só quem sabe o que ele sofre é capaz de julgar. Muitas coisas que li me deixaram muito triste. Um surto é uma coisa muito séria, ele [filho] não fez por querer", condenou. Desde a morte do marido, Maria de Lourdes mora sozinha com Anderson e procura um tratamento melhor para o filho. "Espero da saúde pública um bom tratamento para ele ter uma condição de vida melhor."


