Mulher no volante, desafio constante!
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 1997
Osmani Costa 
Paulo WolfgangReflexos do preconceitoFátima de Carvalho faz auto-escola há cinco meses e não vê hora de obter a carteira: Discriminação contra mulher começa dentro de casaÀs vésperas do terceiro milênio - e apesar de todo avanço conquistado neste século, principalmente nos países ocidentais - alguns tabus e preconceitos prosseguem pesando sobre as mulheres brasileiras. Um deles, comprovado em Londrina, é o fato de as jovens serem discriminadas pelos pais e proibidas de aprender a dirigir automóveis; prática comum e estimulada pelos pais entre os jovens do sexo masculino.
Em consequência do preconceito familiar - embasado na cultura machista latino-americana, segundo teóricos -, grande parte das mulheres só tem a oportunidade de dirigir carros na fase adulta, depois que se casam ou conseguem a independência financeira. E a aprendizagem acontece então, na maioria das vezes, através de muitas aulas em auto-escolas.
Em Londrina funcionam 14 auto-escolas credenciadas pelo Departamento de Trânsito (Detran) do Paraná. Elas contam com 40 instrutores á- dos quais 25 são mulheres - e centenas de alunos, entre os quais cerca de 80% são mulheres. Entre elas, muitas têm mais de 30 anos de idade. Entre os 20% de homens que procuram auto-escolas, quase a totalidade é formada por jovens com 18 a 20 anos.
A existência desta discriminação é verdadeira e começa dentro de casa. Salvo raras exceções, ao carro da família só o pai e os filhos homens têm acesso. Depois que se casam, muitas mulheres ainda têm que enfrentar o mesmo preconceito com o marido, que na maioria das vezes é quem gerencia as chaves do automóvel, afirma a professora Fátima de Carvalho, 38 anos, casada, que há cinco meses frequenta aulas em uma auto-escola londrinense e não vê a hora de obter sua carteira de motorista.
Na opinião dela, este machismo já está presente na infância brasileira, quando os pais estabelecem os brinquedos e brincadeiras às quais têm acesso meninas e meninos. Menina brinca de boneca, de casinha. Menino brinca de carrinho, de motorista, dirige no colo do pai. A separação entre os sexos começa cedo e, quase sempre, é preconceituoso e prejudicial às mulheres, comenta Fátima de Carvalho.
Paulo WolfgangDireção certaA instrutora e diretora de auto-escola Rosaura Tomeleri garante: Mulheres acabam aprendendo a dirigir melhor que os homens
Além de serem dirigidas na maioria por mulheres, o grande número de instrutoras nas auto-escolas é outro detalhe que comprova o machismo. Apesar de ter mudado bastante nos últimos anos, ainda existem muito pais e maridos que não admitem que suas filhas e esposas aprendam a dirigir com um instrutor homem, afirma Rosaura Tomeleri, instrutora e diretora de uma auto-escola.
Segundo ela, muitas mulheres ainda frequentam as aulas às escondidas de seus pais e maridos, por medo de represálias. Outra discriminação que as mulheres sofrem, quando estão aprendendo a dirigir, vem dos motoristas homens pelas ruas da Cidade. Eles buzinam para pressionar e dizem ofensas morais às alunas e instrutoras gratuitamente, denuncia a diretora da auto-escola. Cada aula, com duração de uma hora, custa em média R$ 18,00 nas auto-escolas de Londrina.
Rosaura Tomeleri ressalta que as mulheres - em consequência da pressão deste histórico de vida de preconceitos - chegam às auto-escolas mais medrosas e mais nervosas. Isto tem o seu lado bom. Elas passam a ser mais cautelosas no trânsito, frequentam mais as aulas e acabam aprendendo a dirigir melhor que os homens, garante.
De acordo com proprietários de auto-escolas, muitas mulheres só recebem a permissão para aprender a dirigir sob condições de extrema necessidade, como é o caso de doença do pai ou marido. Nos últimos anos, até que a idade das mulheres que procuram auto-escola tem diminuído. Hoje, muitas jovens vêm logo que completam 18 anos. Isto é reflexo da vida moderna, que trouxe uma série de necessidades e compromissos para a mulher, como trabalhar fora, cursar faculdade, levar e buscar os filhos na escola, comenta a diretora de uma auto-escola, Silvia Del Ciel.
Ela confirma que normalmente as mulheres fazem um número maior de aulas, demoram um pouco mais para aprender, mas são mais cuidadosas e responsáveis ao volante de um automóvel. Os homens já chegam botando banca que sabem tudo, mas trazem muitos vícios de aprendizado; frequentam menos aulas, mas depois têm um índice maior de reprovação nos exames da Ciretran, ressalta Silvia.
A professora Rossiana Alcântara, 24 anos, casada, está tomando aulas em auto-escola há dois meses e se considera apta para o exame e para a obtenção da carteira de habilitação. Ela diz que, por ter sido filha única, começou a aprender a dirigir com o pai por volta dos 15 anos de idade. Lá em casa, numa sofri discriminação. Mas somente eu tive este privilégio na família, certamente porque era filha única. Minhas primas sofreram com este preconceito machista, comenta.
Ela explica que, agora, entrou numa auto-escola para reforçar o aprendizado que teve com o pai e o marido, nos últimos tempos, e para melhorar o entendimento teórico sobre legislação e sinalização de trânsito. Ela já foi aprovada no exame teórico da Ciretran e está para realizar o relativo à parte prática nos próximos dias.
Esta questão de preconceitos e discriminações contra a mulher é muito séria no Brasil. Ter ou não direito a aprender a dirigir automóvel é só um exemplo, dos muitos que há por aí, analisa a professora Fátima de Carvalho. Esta questão está relacionada com a nossa história, nossa cultura; e vem mudando apenas lentamente nos últimos anos. Infelizmente, os pais são conservadores e as mães são reprodutoras deste estado de coisas, destes tabus e preconceitos. Em grande parte, são as mães as responsáveis pela formação dos filhos e, portanto, pela manutenção e reprodução desta cultura machista.


