RIBEIRÃO PRETO - Cristiane de Paula Pereira Martins, viúva do piloto Jorge Martins, que comandava o Lerjet PT-LSD que chocou-se na Serra da Cantareira matando os integrantes do grupo Mamonas Assassinas em março de 96, diz que os controladores de vôo da torre em Guarulhos poderiam ter evitado o acidente com uma simples ordem para que o piloto ‘‘empinasse o nariz do avião’’. Ela disse que tem uma fita de vídeo que mostra esse pequeno detalhe suprimido pela Aeronáutica, e que tem sofrido ameaças para não divulgar o material. Na sexta-feira, a íntegra da fita, com pouco mais de 17 minutos, será mostrada no Globo Repórter.
‘‘Protegeram os controladores e tentaram culpar meu marido por ele ter arremetido para o lado contrário ao determinado pela torre’’, diz Cristiane. ‘‘Realmente isso aconteceu, mas o acidente poderia ser evitado mesmo assim’’, continua. ‘‘A fita mostra que, no radar, o avião estava indo direto contra uns triângulos piscando, que indicavam obstáculos’’, prossegue. ‘‘Os controladores poderiam ter avisado o Jorge, que informou que suas condições de vôo eram visuais’’, lamenta.
A fita, segundo Cristiane, mostra os últimos diálogos entre a torre e o piloto. O co-piloto Takeda diz: ‘‘Lima Serra Delta (LSD) arremetendo, senhor’’. ‘‘Setor sul’’, recomenda a torre. ‘‘Setor Norte’’, responde Takeda. Cristiane diz que não houve comentário da torre de que o piloto estava seguindo na direção errada.
Depois de 40 segundos sem comunicação, a torre pede para Jorge indicar suas condições de vôo e ele responde ‘‘visual na base’’. Em seguida, o piloto pergunta ‘‘posso girar a base e pousar?’’. A torre responde ‘‘Negativo, temos duas aeronaves em aproximação, continue alongando a perna do vento (seguir reto) e chame 119 decimal oito (controle de tráfego)’’, instruíram os operadores. Jorge chama a torre e bate.
‘‘Mandaram ele seguir reto sabendo que havia vários obstáculos na frente’’, protesta Cristiane. ‘‘O erro de arremetida aconteceu quase 50 segundos antes da batida’’, lembra. ‘‘Havia tempo suficiente para, pelo menos, dizerem para ele subir mais um pouco e evitar a batida’’, lamenta.
Cristiane diz que não pensa em entrar com novas ações na Justiça ou pedir indenização pelo acidente. ‘‘Não quero mexer com isto’’, afirma. ‘‘Quero apenas que vejam que a torre poderia ter evitado o acidente’’, conclui.

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