Mulher de piloto do Mamonas denuncia erro da torre de Cumbica
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de fevereiro de 1997
Agência Estado 
RIBEIRÃO PRETO - Cristiane de Paula Pereira Martins, viúva do piloto Jorge Martins, que comandava o Lerjet PT-LSD que chocou-se na Serra da Cantareira matando os integrantes do grupo Mamonas Assassinas em março de 96, diz que os controladores de vôo da torre em Guarulhos poderiam ter evitado o acidente com uma simples ordem para que o piloto empinasse o nariz do avião. Ela disse que tem uma fita de vídeo que mostra esse pequeno detalhe suprimido pela Aeronáutica, e que tem sofrido ameaças para não divulgar o material. Na sexta-feira, a íntegra da fita, com pouco mais de 17 minutos, será mostrada no Globo Repórter.
Protegeram os controladores e tentaram culpar meu marido por ele ter arremetido para o lado contrário ao determinado pela torre, diz Cristiane. Realmente isso aconteceu, mas o acidente poderia ser evitado mesmo assim, continua. A fita mostra que, no radar, o avião estava indo direto contra uns triângulos piscando, que indicavam obstáculos, prossegue. Os controladores poderiam ter avisado o Jorge, que informou que suas condições de vôo eram visuais, lamenta.
A fita, segundo Cristiane, mostra os últimos diálogos entre a torre e o piloto. O co-piloto Takeda diz: Lima Serra Delta (LSD) arremetendo, senhor. Setor sul, recomenda a torre. Setor Norte, responde Takeda. Cristiane diz que não houve comentário da torre de que o piloto estava seguindo na direção errada.
Depois de 40 segundos sem comunicação, a torre pede para Jorge indicar suas condições de vôo e ele responde visual na base. Em seguida, o piloto pergunta posso girar a base e pousar?. A torre responde Negativo, temos duas aeronaves em aproximação, continue alongando a perna do vento (seguir reto) e chame 119 decimal oito (controle de tráfego), instruíram os operadores. Jorge chama a torre e bate.
Mandaram ele seguir reto sabendo que havia vários obstáculos na frente, protesta Cristiane. O erro de arremetida aconteceu quase 50 segundos antes da batida, lembra. Havia tempo suficiente para, pelo menos, dizerem para ele subir mais um pouco e evitar a batida, lamenta.
Cristiane diz que não pensa em entrar com novas ações na Justiça ou pedir indenização pelo acidente. Não quero mexer com isto, afirma. Quero apenas que vejam que a torre poderia ter evitado o acidente, conclui.


