Mulher de Machado de Assis teria escrito parte da sua obra
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quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Roberta Jansen 
Rio, 08 (AE) - Considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa, Machado de Assis teria contado com a ajuda da mulher, Carolina Augusta Xavier de Novaes, para escrever parte de sua obra. Ao que tudo indica, a esposa foi mais do que simples musa inspiradora do escritor e teria, de próprio punho, acrescentado trechos e feito mudanças em alguns textos. A revelação foi feita hoje pela sobrinha- bisneta de Carolina e herdeira do casal, Ruth Leitão de Carvalho Lima.
De acordo com a história da família, quando Machado saia para o trabalho (ele era funcionário público) costumava deixar textos inacabados sobre a mesa. "Carolina, que era uma moça muito culta, muitas vezes alterava ou acrescentava alguns trechos", conta Ruth. "A heroína estava sofrendo muito", teria justificado, certa vez, ao marido, se desculpando pela intromissão. Segundo Ruth, Machado não se importava porque admirava tudo o que a mulher fazia. "Ele achava uma graça porque era apaixonado", afirma a herdeira. "Isso foi verdade mesmo, não é lenda não." O escritor e acadêmico Antonio Olinto, pesquisador da obra de Machado de Assis, afirma que a história é muito comentada entre os especialistas, mas nunca se conseguiu provar nada. "Com certeza, ela revisava os textos e os lia com muito interesse, pois era uma mulher muito culta", diz.
A história vem à tona agora, 91 anos depois da morte de Assis, quando a Academia Brasileira de Letras (ABL) se prepara para receber no dia 21, em seu mausoléu, os restos mortais do casal.
Eles serão trasladados de um outro mausoléu no próprio cemitério São João Batista para o da ABL, onde ocuparão um lugar de honra, na capela, especialmente reformada para recebê-los. Para ter os restos mortais de seu próprio fundador, a ABL teve de esperar muitos anos até o regimento ser mudado, permitindo que Carolina acompanhasse o marido.
A família demorou a dar a autorização para o traslado porque não queria contrariar a vontade do escritor que, em testamento, deixou registrado o desejo de permanecer para sempre ao lado da mulher. "No final da década de 70, a ABL havia pedido a minha mãe, herdeira universal do Machado, para fazer a mudança", lembra Ruth, herdeira do escritor. "Ela não deixou porque queriam levar só o Machado e mamãe não permitiria que os dois fossem separados."
Tanto zelo por parte da família tem explicação. De acordo com os depoimentos de diversos parentes, Assis e Carolina eram absolutamente apaixonados um pelo outro. "Era uma paixão louca", atesta Ruth. A história de amor começou em 1869, quando Carolina Augusta Xavier de Novaes deixou Portugal, onde nascera, e veio para o Brasil. "Para os padrões da época, ela era uma solteirona, pois já tinha trinta anos", conta a sobrinha bisneta. "Mas também era considerada belíssima: loura de olhos azuis, além de ser muito culta." Assis conheceu Carolina num sarau musical e os dois logo se enamoraram. A família de Carolina, de classe média alta, opôs-se ao casamento da moça com o escritor negro, de poucos recursos, descendente de escravos e filho de uma lavadeira. Reza a lenda que a moça foi categórica: "Não estou pedindo licença, estou comunicando." O casamento foi realizado no mesmo ano, com o apoio de um irmão da noiva. Consta que os dois descansavam após o almoço todos os dias, sentados de mãos dadas numa cadeira de balanço geminada. A interação entre os dois era tanta, segundo Ruth, que permitia que Carolina alterasse os textos do marido.
Quando Carolina morreu, em 1904, Machado continuou dando ordens para que colocassem o prato e os talheres dela à mesa e deixou, no quarto, os pertences intocados. "Ele não deixou nem que tirassem seus fios de cabelo da escova", atesta Maria Teresa Leitão de Carvalho, sobrinha trineta de Carolina. Deprimido, Assis morreu poucos anos depois, em 1908. Os dois estão enterrados juntos no São João Batista, no túmulo que o escritor comprou quando a mulher morreu.
Para receber os restos mortais do casal, a ABL reformou a capela do mausoléu. "Haverá uma chama votiva para mostrar o quanto Machado é eterno para nós", conta o presidente da ABL, Arnaldo Niskier. "Ao fundo, cunhado em três quadros de granito, estará o soneto A Carolina, que Machado fez para a esposa logo após a sua morte." O cantor e compositor Carlos Lyra apresentará, na ocasião, uma música que fez para o poema de Machado "Quando Ela Fala".


