Mulher comanda associação de policiais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de outubro de 2005
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A primeira mulher a presidir a Associação Internacional de Chefes de Polícia (IACP) em mais de um século de existência da entidade, a norte-americana Mary Ann Viverett, esteve recentemente no Paraná, onde participou, em Foz do Iguaçu, da 5 Conferência Internacional de Segurança Pública para a América do Sul.
A IACP é a maior e mais antiga organização de executivos policiais em caráter de associação sem fins lucrativos do mundo, reunindo mais de 20 mil sócios, que representam 101 países. A sede da associação fica em Alexandria, no Estado da Virginia, Estados Unidos. Há escritórios regionais em Nova Deli, na Índia, em São José, na Costa Rica, em Borgheim, na Noruega, em Toronto, no Canadá, e em Durbam, na África do Sul. O escritório que representa a América do Sul fica em Brasília.
Além de presidir a IACP, Mary Ann é a chefe do Departamento de Polícia de Gaithersburg, cargo que ocupa há 19 anos. Em entrevista exclusiva à Folha, Mary Ann falou sobre o trabalho da IACP e sobre as principais preocupações das autoridades policiais norte-americanas nas ações de segurança pública.
Folha de Londrina - Qual é exatamente o papel da IACP?
Mary Ann Viverett - É bastante abrangente. Mas o principal objetivo do IACP é aumentar a profissionalização nos meios policiais. Uma das formas de se fazer esse melhoramento é por meio de programas mundiais de treinamento, de instrução para as agências de polícia. Outra forma é por meio de pesquisas feitas pela própria IACP ou por lideranças policiais sobre novas tecnologias. O que se busca, também, é a interação entre organismos policiais de diferentes países para que seja possível a troca de experiências, onde cada um possa mostrar aquilo que tem mais conhecimento, como por exemplo, Israel, no que diz respeito a terrorismo, ou dos Estados Unidos, que têm grande experiência na área de polícia comunitária. O governo dos Estados Unidos disponibiliza orçamento (US$ 40 milhões anuais) para gerenciarmos os programas e pesquisas, cujos resultados são repassados para todas as agências policiais do mundo.
Folha - Qual é o foco atual do trabalho da IACP?
Mary Ann - Um dos focos da IACP, hoje, é a questão da segurança no trânsito, por meio da utilização de câmeras nos veículos policiais, radares a laser e outros equipamentos. Outro grande foco é a questão da segurança interna por meio do intercâmbio com outros organismos policias como FBI, agências locais e estaduais. Um dos pontos em que estamos procurando maior intercâmbio de informações é em situações de desastres naturais como a que ocorreu em Nova Orleans, de modo que possamos aperfeiçoar sistema de comunicação, de deslocamento para que seja possível dar uma resposta mais adequada do que foi dada. Essa questão da segurança interna, principalmente no que diz respeito a desastres naturais, não fica só no âmbito dos Estados Unidos. É em âmbito internacional para que eventos que ocorram em outros países também possam ser respondidos de maneira adequada e em tempo adequado. Uma das grandes preocupações dos chefes de polícia nos Estados Unidos é com o número de mortes em decorrência de ações policiais e por isso tem se defendido o emprego de armas não letais como 'tasers', que dispara descargas elétricas.
Folha - Uma das grandes preocupações dos governantes no Brasil é com a corrupção no meio policial e o envolvimento da polícia com o crime organizado. Isso também preocupa os Estados Unidos?
Mary Ann - Não dá para afirmar que não existe corrupção policial nos Estados Unidos. No entanto, isso acontece em apenas 5% de todas as agências, organismos policiais. Há uma tendência um pouco maior nos departamentos de grande porte, com grandes efetivos, onde o controle sobre esses efetivos se torna um pouco mais difícil. Em todo o País são cerca de 700 mil policiais divididos por 17 mil agências. Agora, essa corrupção, em geral, não tem relação com o crime organizado. São situações de pequenos furtos, por exemplo, em que o policial tenta tirar proveito. Um dos aspectos restritivos das condutas corruptas de policiais no Estados Unidos, principalmente, dos anos 70 para cá, é exatamente na publicidade que se dá ao cometimento desses atos. Por causa dessa publicidade, o ato de um policial reflete em todos os outros organismos policiais. Em virtude dessa extensão do dano causado por um policial que cometeu um crime ou atitude aética, a tendência a esse tipo de comportamento diminui sensivelmente.
Folha - A senhora conhece a realidade brasileira no que diz respeito à criminalidade e a atuação das instituições policiais do Brasil? No que seria preciso avançar?
Mary Ann - Esta é a segunda vez que estou vindo ao Brasil e, por isso, não tenho como traçar um perfil da realidade na área de segurança pública. Mas, acredito que a melhor forma da polícia se aperfeiçoar é através de treinamento, formação, especialização, liderança, sempre com muita ênfase na ética.
Folha - Como é presidir uma organização de chefes de polícia, instituição em que a maioria dos membros é homem?
Mary Ann - Sou chefe de polícia há 19 anos. A questão do gênero deixou de ser relevante na minha comunidade há muito tempo. Na verdade, por ser chefe de polícia há tanto tempo já esqueci de ter que lidar com esse tema do gênero. Isso já está superado. Não tive que ser melhor do que os homens, mas tive que ter a mesma formação, a mesma graduação e trabalhei muito para conquistar o respeito dos prefeitos da cidade e de outros chefes de polícia que me colocaram na condição de sexta vice-presidente da IACP (cargo que se ocupa, inicialmente, até chegar à presidência).
Folha - Mas a senhora não enfrenta nenhum tipo de resistência?
Mary Ann - Não. Eu sou a chefe (risos). Em razão do tempo em que estou como chefe, eu mesma contratei todos oficiais que estão lá. Eles já sabiam que iam ser chefiados por uma mulher. Apesar de não sofrer nenhum preconceito, entendo a importância histórica disso, pois considerando a própria IACP, sou a primeira mulher a ser presidente em 112 anos de existência. Sei que isso é muito importante para que as próximas gerações vejam que chegar na posição de chefe é possível. Atualmente, apenas 3% dos chefes de polícia são mulheres. São aproximadamente 150 chefes em todo o país. Claro que a maioria das agências americanas possui mulheres no seu quadro, mas não em cargos de chefia.


