Inteligente, carismático e querido entre os brasileiros, o ex-jogador Sócrates, 57, enfrenta um drama que parece incompatível com a própria trajetória de vida. Aclamado como um dos grandes nomes do futebol mundial da década de 1980, o célebre corintiano - que também é formado em Medicina - vive dias de sofrimento e incertezas com relação à saúde, em função de uma cirrose hepática adquirida pelos anos de uso abusivo do álcool. Atualmente, se prepara para enfrentar a fila que pode garantir-lhe a cura através de um transplante de fígado.
  Nesse drama, infelizmente, Sócrates também não joga sozinho. De acordo com a Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas (Abead), 12% da população brasileira é dependente de bebidas alcóolicas. Outros 24% fazem uso abusivo, ou seja, apesar de não beberem todos os dias, ingerem grandes quantidades de álcool em algumas ocasiões, o que aumenta o risco de provocarem a própria morte ou de outras pessoas em brigas e acidentes de trânsito, além de doenças causadas pelo alto consumo da substância.
  Conforme o psiquiatra Carlos Salgado, especialista em dependência química e presidente do conselho da Abead, a dependência é o transtorno mais relevante decorrente do uso do álcool, mas não é o único. Quadros depressivos, perdas cognitivas, demência alcóolica, paranoia do ciúme - que ocasiona grande parte dos casos de violência doméstica - e doenças no fígado, trato digestivo e diabetes são outras consequências do abuso.
  Em função dessa realidade, uma estatística conservadora aponta que 30% dos leitos dos grandes hospitais clínicos gerais são ocupados por pessoas que, se não bebessem, não estariam internadas. O número não inclui os atendimentos decorrentes de acidentes de trânsito e violência exacerbados pelas bebedeiras. Em nível mundial, 3,8% das mortes e 4,6% das doenças são causadas pelo álcool, que é fonte de mais de 60 enfermidades.
  Na ‘‘vida real’’, um ex-funcionário de supermercado amarga, aos 45 anos, as consequências do alcoolismo. Dependente há pelo menos 20 anos, em plena idade produtiva está afastado do trabalho em função de diabetes e problemas vasculares causados pela bebida. Casado e pai de uma menina de 11 anos, ele começou a beber aos 14 anos para minimizar a timidez. Aos 25, já dependente, casou-se e, cinco anos depois, passou por uma internação que garantiu a sobriedade pela década seguinte.
  Num ‘‘momento de bobeira’’, há dois anos, achou que tinha controle sobre o alcoolismo e tomou uma lata de cerveja durante um passeio com a filha. ‘‘Achei que ia ser tranquilo, mas nesse mesmo dia tomei outras cinco latas. E, depois que recaí, a queda foi rápida’’, lamenta.
  Tentando se livrar do vício na unidade de Álcool e Drogas do Centro de Atenção Psicossocial (Caps-AD) de Londrina, ele está em tratamento há três meses, mas mantinha abstinência há apenas uma semana no dia da entrevista. ‘‘O mais difícil é a síndrome da abstinência dos primeiros dias. Sinto tremores e medo de ter uma convulsão. Depois, a gente começa a se controlar.’’
  Conversas, terapias e troca de experiências com outros dependentes químicos estão ajudando nosso personagem a se conscientizar sobre a necessidade de deixar a bebida. ‘‘Não adianta ficar sóbrio a semana inteira e ‘tomar todas’ no sábado’’, diz ele, que costumava beber em casa por medo de não conseguir lembrar o caminho de volta se estivesse na rua.
  Depois de perder o trabalho e, em muitas ocasiões, o respeito dos conhecidos, o maior medo dele - e que o motiva a lutar contra o alcoolismo - é perder a família. ‘‘Minha filha se afastou de mim quando voltei a beber. Sei que minha esposa ficou muito triste, mas ela não fala mais nada, apenas ora’’, conta o homem, que também se apegou à religião na tentativa de se livrar do vício.

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