Harare, 15 (AE-AP) - O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, sofreu sua mais humilhante derrota em seus quase 20 anos de governo no referendo de domingo sobre uma reforma constitucional que lhe concederia maiores poderes.
O referendo era considerado um teste crucial para o governo de Mugabe antes das eleições gerais de abril, nas quais ele será enfrentado por um novo movimento de oposição cuja criação foi estimulada pela pior crise econômica do país em décadas.
O eleitorado rejeitou por 55% dos votos a proposta de reforma constitucional que Mugabe submeteu a referendo. Segundo porta-vozes da comissão encarregada da recontagem, o número total de votos com o "não" foi de 697.754, e de votos com o "sim" 578.210.
Além de transferir ao presidente prerrogativas que até agora era exclusivas do Parlamento, a proposta abria a possibilidade de expropriar por decreto e sem compensação econômica as terras da minoria branca.
Os brancos de origem européia constituem apenas 1% de uma população de 12 milhões de habitantes, mas continuam controlando o setor agrícola, um dos mais prósperos do país.
Dentro da governista União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu) havia a confiança de que a promessa de se repartir as propriedades dos brancos entre a maioria negra seria suficiente para pender a balança a favor do "sim". Segundo observadores locais, a rejeição majoritária nas amplas zonas urbanas à reforma constitucional foi, entretanto, decisivo para o triunfo do "não".
A agência estatal de notícias do Zimbábue, Ziana, definiu como "um choque" a força da rejeição à proposta constitucional em alguns dos subúrbios negros mais pobres dos arredores de Harare.
Nos meios oficiais confiava-se que essas zonas continuariam sendo feudos da Zanu e Mugabe - que até pouco tempo era considerado como o "libertador" que em 1980 livrou o país do jugo do regime segregacionista da antiga Rodésia.
A campanha do governo incluiu a acusação de que os brancos são responsáveis pelos males que afetam o Zimbábue, mas, na opinião de alguns analistas, este recurso, que surtiu efeito nas duas décadas passadas, não influenciou o eleitorado por causa do calamitoso estado em que se encontra a economia do país.
A escassez de combustíveis, assim como o racionamento dos alimentos básicos, unidos à inflação galopante e à constante desvalorização do dólar zimbabuano, foram os principais fatores que levaram à abrupta queda de popularidade de Mugabe.
O referendo foi utilizado pela oposição, aglutinada em torno do Movimento para as Mudanças Democráticas, para destacar o descontentamento da população com uma crise econômica que se agravou após a intervenção do país na guerra civil da República Democrática do Congo (ex-Zaire). O envio de 12 mil soldados, numerosos tanques e aviões de combate e principalmente de combustível para essas unidades levou as instituições financeiras internacionais a interromper suas linhas de crédito ao Zimbábue.

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