Harare, 18 (AE-AP) - O presidente Robert Mugabe chamou nesta terça-feira (18) fazendeiros brancos de "inimigos do Zimbábue" horas depois de um segundo proprietário de terras branco ser assassinado na pior escalada de violência em dois meses de ocupação de centenas de fazendas de brancos.
No 20º aniversário da independência do Zimbábue da dominação branca, em entrevista concedida à televisão local após um pronunciamento à nação, Mugabe acusou os fazendeiros de "mobilizar, na verdade coagir" seus trabalhadores contra seu regime e de quererem fazer com que o país retroceda à era colonial.
A oposição de fazendeiros brancos a uma reforma constitucional apresentada num referendo em fevereiro que visava acelerar o confisco de terras de brancos para sua distribuição entre trabalhadores negros sem terra "os expôs como nossos inimigos, não apenas inimigos políticos, mas inimigos definitivos esperando reverter nossa revolução e nossa independência", disse ele.
Imediatamente após a proposta de reforma ter sido derrotada no referendo, sem-terra negros começaram a ocupar fazendas de brancos em todo o país.
Mugabe tem se referido aos invasores como veteranos da guerra de independência do Zimbábue protestando contra a grande quantidade de terras dominadas pelos brancos. Mas muitos sem-terra, que começaram a vestir camisetas do partido governista nos últimos dias, são jovens demais para terem lutado na guerra.
Políticos de oposição dizem que as invasões são nada mais do que um esforço de Mugabe para amedrontar os fazendeiros brancos e seus trabalhadores, fazendo-os abandonar o partido oposicionista Movimento por Mudanças Democráticas antes das eleições parlamentares que devem ser convocadas no próximo mês.
As eleições inicialmente estavam previstas para este mês, mas Mugabe decidiu adiá-las para garantir o voto dos setores mais desfavorecidos, que exigiam uma reforma agrária.
"A violência e a intimidação estão sendo orquestradas por Mugabe e pela hierarquia de seu partido. Eles estão querendo afastar o MMD das áreas rurais. Eles estão em busca da base de apoio do MMD", disse David Coltart, um integrante do MMD.
Horas antes do discurso de Mugabe, um grupo de pelo menos 40 homens armados com fuzis AK-47 entrou numa fazenda no oeste do Zimbábue e cercou a casa do pecuarista Martin Olds. Os atacantes mataram Olds, de 42 anos, num tiroteio que durou cerca de três horas, segundo Coltart. Eles então queimaram a casa.
Agredido e ferido a tiros, Olds, de 42 anos, chegou a pedir ajuda por rádio. Mas os invasores impediram que enfermeiros chegassem até ele, disse David Hasluck, diretor do Sindicato dos Fazendeiros.
A mãe do fazendeiro, Glória, disse que seu filho apanhou tanto que ficou irreconhecível. "Ele estava absolutamente crivado de balas. Um lado de seu rosto estava estraçalhado e é obvio que ele foi objeto de uma selvagem agressão", disse Vicky Kaufman, fotógrafa que encontrou o cadáver de Olds.
No sábado, o fazendeiro branco David Stevens, membro do partido de oposição, Movimento pela Mudança Democrática (MMD), também foi assassinado com um tiro no rosto pelos ex-combatentes
que o haviam sequestrado em Marondera.
Cerca de mil fazendas da minoria branca (cerca de 2% da população) foram invadidas pelos ex-combatentes desde o fracasso do referendo de fevereiro. Mugabe diz que as ocupações são a resposta à histórica injustiça que permitiu que uns poucos fazendeiros brancos ficassem com cerca de 70% da terra fértil do país.

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