Mudanças na EJA causam descontentamento
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terça-feira, 07 de janeiro de 2014
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Londrina - Quem cursa a Educação para Jovens e Adultos (EJA) deve enfrentar mudanças neste ano letivo. A maior parte delas se refere a quem cursa a modalidade individual - aquela em que o aluno faz as disciplinas no seu tempo, sem seguir uma turma e com a possibilidade de se ausentar por períodos maiores de tempo.
Entre as alterações propostas estão a exigência de no mínimo 20 alunos para início da turma de ensino individual, ao contrário dos 10 atuais, necessidade de documento atestando vínculo empregatício e prazo máximo de seis meses para conclusão da disciplina contra os dois anos atualmente em vigor.
Outras mudanças são a criação de quatro datas para matrícula durante o ano e não mais quando da abertura de disciplinas e a oferta da modalidade apenas nos Centros Estaduais de Educação Básica para Jovens e Adultos (Ceebja) e não mais em todas as escolas que ofertam a EJA.
A instrução 008/2013, da Secretaria de Estado da Educação (Seed), publicada no início de dezembro, é considerada um "retrocesso" por professores e alunos. O Fórum Paranaense de EJA da Região de Londrina, formado por diversas entidades, encaminhou um documento ao Ministério Público pedindo providências.
O pescador Aguiar Caetano da Silva é um dos alunos que correm o risco de ter que mudar seu local de estudo. Por causa do trabalho, ele frequenta as aulas em semanas alternadas e por isso a modalidade individual é a mais indicada. Morador do Jardim São Lourenço (zona sul), ele teme ter que parar o curso. "Estudo na Escola Estadual Rina Maria de Jesus Francovig, que fica a cinco minutos da minha casa e se tiver que ir para o centro vou gastar uns 45 minutos de ônibus. Hoje vou a pé. E se mudar, vão dar o dinheiro para a passagem?", questiona.
Segundo Caetano, a esposa dele estuda no mesmo local e também está descontente com a possibilidade de mudança. "Voltamos a estudar para buscarmos empregos melhores. A gente já não tem paciência de estudar e ainda vão dificultar? Pobre mora em vila, não no centro. No meu bairro tem muitos alunos. São domésticas, pedreiros, pessoal que trabalha no Ceasa e está todo mundo preocupado. Se mudar, muita gente vai ficar brava", destaca.
Dalva Ramos Martins trabalha com serviços gerais e há há dois anos frequenta o EJA na modalidade individual. Residindo no Jardim Jatobá (zona sul), ela diz que também vai à escola a pé e que estudar perto de casa é fundamental. Criada na roça, Dalva destaca que foi muito importante ter voltado à escola e que devido ao trabalho algumas vezes acaba faltando ou chegando atrasada. Por isso, escolheu a modalidade individual.
"Chego correndo do trabalho e só tenho tempo de tomar banho e comer alguma coisa. Facilita bastante o colégio ser perto de casa. Se eu tiver que ir para o centro, começa a ficar inviável, até porque irei gastar com o ônibus. Se ficar direto do trabalho, aí irei gastar com pelo menos um lanche e ficar sem tomar banho depois de um dia de trabalho é complicado. Conversei com outras colegas, ficará ruim para todo mundo e aí corremos o risco de parar (de estudar)", lamenta.
Diferenciado
Ivonir Rodrigues Ayres, professor e membro da secretaria executiva do Fórum Paranaense de EJA da Região de Londrina, explica que o ensino para jovens e adultos deve ser diferenciado, respeitando as características e necessidades desse público.
"Entendemos que tem que haver carga horária, avaliação processual, mas também tem que ter receptividade. O aluno precisa ser acolhido, ter um currículo diferenciado que garanta ao jovem, ao idoso ou ao adulto a melhor educação possível. Não dá para manter o mesmo formato da educação de crianças e adolescentes", diz.
De acordo com Ayres, muitos alunos se ausentam durante longos períodos, como os que trabalham durante a safra agrícola, e precisam de um calendário diferenciado. "Temos caminhoneiros, que viajam muito. Há aqueles que ficaram longos períodos sem estudar, que têm a sua rotina e resolvem voltar para a escola. Antes ia abrindo turmas de disciplinas e o aluno ia se matriculando durante o ano, agora será necessário aguardar um tempo certo. Enquanto queremos chamar o aluno, o governo estabelece obstáculos", dispara.
Outra crítica é em relação à data em que foi publicada a instrução, um dia após a atribuição de aulas, segundo Ayres. "Muitos professores tiveram que sair correndo atrás do Núcleo (Regional de Educação de Londrina NRE) porque ficaram sem aulas", aponta.
O documento pedindo providências ao Ministério Público foi protocolado no dia 20 de dezembro e deve ser analisado após o recesso forense. Em paralelo, estão sendo programadas mobilizações dos alunos mesmo durante as férias. "O Fórum também protocolou na Seed um pedido de revisão dessa instrução. Queremos que seja revogada", diz Ayres.
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