Brasília, 02 (AE) - A demissão do presidente do Banco Central (BC), Francisco Lopes, e a substituição pelo economista Armínio Fraga, um dos operadores do fundo de investimentos do megaespeculador George Soros, dividiram os parlamentares que estiveram hoje no Congresso. Enquanto os políticos ligados à base de sustentação do governo defendiam a escolha e prometiam acelerar a aprovação do nome pelo Senado, os parlamentares da oposição criticaram duramente o governo e prometeram mobilizar-se para que seja rejeitada a indicação. No fim da tarde, entregaram ao presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), uma carta pedindo a imediata convocação do Senado, para deliberar rapidamente sobre a indicação.
Para o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Pedro Piva (PSDB-SP), a escolha foi acertada por ter substituído um "clínico ótimo" por um "operador excelente". "Não se fica satisfeito, é claro, depois de Chico Lopes ter passado na sabatina e tendo ficado no poder tão pouco tempo, mas foi uma cirurgia de emergência." A entrada oficial do novo presidente do BC, contudo, só deve ocorrer em março. "Só vamos acertar a sabatina no mês que vem, já que a pauta do Senado está limpa e não justifica chamar os senadores às pressas", adiantou Piva.
Para o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), a escolha de um "profundo conhecedor" do mercado será refletida nos próximos dias. "Foi no momento certo", disse. O ex-ministro do Planejamento e deputado tucano, Antônio Kandir (SP), também concordou com o "timing" da mudança. "A missão do vice-presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Stanley Fisher, termina em dois dias e a mudança precisava ser feita antes disso, já que quem assinará a carta de intenções será o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central", explicou. De acordo com ele, a reação positiva do mercado atestou a "boa escolha". "Era um sonho antigo do ministro da Fazenda, Pedro Malan, ter Fraga por perto."
"Eu estou indignado; o Senado está acovardado, ajoelhado", afirmou o senador Roberto Requião (PMDB-PR), um dos membros da CAE, encarregada de deliberar sobre a indicação de presidente e diretores do BC. "Não quis ouvir o Itamar Franco (governador de Minas Gerais, pelo PMDB), mas aprovou o nome do Chico Lopes em regime de urgência e está em recesso no momento da troca", acrescentou. S Segundo ele, a troca de comando no BC antes mesmo de o novo presidente ter tomado posse foi "um escárnio" do governo.
"O presidente Fernando Henrique deveria ir para a cadeia", atacou Requião. "Ele está pagando vales internacionais sem a menor vergonha; devia renunciar e ser processado, responsabilizado pelo que fez pelo Brasil" , emendou. Requião frisou que Lopes será substituído pelo "empregado de um gânsgter do mercado". O senador da ala oposicionista do PMDB afirmou que o nome do economista deve ser rejeitado pelo Senado. "Se o aprovar, é melhor substituir o Chelotti (Vicente, diretor-geral da Polícia Federal) por um chefão da máfia colombiana."
O presidente nacional do PPS, senador Roberto Freire (PE), qualificou a nomeação de Fraga como "um absurdo, uma total insensibilidade do governo". Ele prometeu trabalhar para conseguir a rejeição do nome do economista na CAE. "Ele corre o risco de não ser aprovado no Senado; eu vou trabalhar para isso", avisou. "Quando se fala de quarentena e outros impedimentos para ter o Banco Central como um serviço público, o governo vem como essa?; isso é um escárnio." Um dos interlocutores de Fernando Henrique junto a oposição, Freire desqualificou o novo presidente do BC - "Esse cara é um especulador" - e criticou o presidente. "O Fernando conversa com a oposição e a resposta que dá é essa?; não há mais o que conversar."
O senador José Eduardo Dutra (PT-SE) afirmou que, "ou o governo perdeu o rumo, ou resolveu seguir na íntegra as regras do Fundo Monetário Internacional". Para ele, a nomeação de Fraga significa a "terceirização do Banco Central" e a volta da rotina de indicar para a presidência da autoridade monetária "alguém ligado ao mercado". Um dos membros da CAE, ele acredita que a indicação de Lopes foi um "desrespeito ao Senado e à base governista" e que o Senado "deveria rejeitar o nome de Fraga para dar uma demonstração de altivez" ao governo.
O presidente nacional do PT e deputado, José Dirceu (SP), afirmou que Fraga é um "homem ligado a interesses privados". O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) discordou do nome, mas defendeu rapidez na decisão da CAE, em função da situação de crise enfrentada pelo País.
A ex-ministra do Planejamento e deputada, Yêda Crusius (PSDB-RS), admitiu a surpresa com as mudanças no BC, mas garantiu que " isso mostra que o governo agiu e tem o comando da política econômica".
Segundo ela, o fato de ter estado ligado a Soros torna Fraga habilitado para conduzir o novo momento econômico do País. "Ele sabe como se joga lá fora." Para ela, a nomeação do economista "afasta a ideia do currency board, da volta da inflação e da centralização cambial e reitera o compromisso do governo com o ajuste fiscal".
Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), senador Fernando Bezerra (PMDB-RN), "politicamente, o processo está mal conduzido, mas, do ponto de vista técnico, talvez esteja correto porque ele é um operador e tem experiência no mercado financeiro". Ele afirmou que "ficou muito claro que o Banco Central perdeu credbilidade" durante a gestão de Lopes. Daí as especulações da sexta-feira (29), que "culminaram naquele dia de caos".
"Armínio, não é Armínio o nome dele?", perguntou o líder do PMDB, Geddel Vieira Lima (BA), que, apesar da dúvida, considerou a indicação de Fraga uma boa escolha. "É um nome de mercado e conhece artimanhas em nível nacional e internacional." "O mercado reagiu bem porque é o mercado quem foi para o poder", reagiu o deputado Aloisio Mercadante (PT-SP). O deputado pretende entregar amamnhã (03) um requerimento à mesa da Câmara para que Fraga seja sabatinado pelos deputados ainda na próxima semana, em meio à autoconvocação.

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