São Paulo, 06 (AE) - Ao longo de outubro, pequenos sustos foram colocando lenha no pessimismo dos empresários e do mercado financeiro: reajuste salarial de 10% para metalúrgicos de montadoras, discurso de Alan Greenspan, presidente do banco central norte-americano alertando para preços exagerados de ações e taxas de inflação acima do esperado. Até agosto, se esperava uma inflação de 6% pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Agora, as projeções apontam 8%.
A renegociação com o FMI e a decisão do BC de intervir no mercado cambial acabaram funcionando como catalisador de bons sinais para a economia. "Há um momento em que os agentes percebem as boas notícias", observa Dany Rappaport, economista-chefe do Banco Santander. No dia 22 de outubro, o governo informou que até agosto acumulou um ajuste fiscal superior à meta em US$ 4,6 bilhões e o investimento direto estrangeiro já somava US$ 24,6 bilhões, devendo encerrar o ano em US$ 28 bilhões. No dia, o resultado pouco influenciou no câmbio. Dois dias depois, as urnas argentinas confirmaram o cenário esperado e os novos indicadores da economia norte-americana demonstraram que a inflação não está fora de controle.
Os economistas não esperam mais recessão em 99 e apostam em um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2,7% e 3 5% no ano 2000. O ajuste fiscal negociado com o FMI deve ser cumprido nos dois anos. Boas notícias virão da balança comercial. O saldo pode ser positivo em até US$ 4,8 bilhões. Para Rappaport, foram os fundamentos - resultados fiscais e de contas externas externas - que levaram ao otimismo que acabou resultando na trajetória decrescente do valor do dólar ante o real. Ele havia elevado sua projeção para a cotação de fim de dezembro de R$ 1,85 para R$ 1,95. "Vai ser melhor do que isso"
revê.
Marcelo Allain, economista-chefe do banco Inter American Express, e Odair Abate, economista-chefe do Lloyds Bank, avaliam que a melhora de percepção está diretamente relacionada ao anúncio do novo piso de reservas internacionais líquidas (o BC "ganhou" o direito de usar mais US$ 2 bilhões para acalmar o mercado) e à decisão do BC de intervir no mercado (ainda que o tenha feito em proporção muito pequena). "A mudança de atitude foi importante", diz Allain.
As duas mudanças (que são interligadas) indicaram que o câmbio não deveria mais seguir uma trajetória ascendente. Por trás da elevação do câmbio estava a preocupação com os reflexos sobre a inflação, se a cotação ficasse permanentemente acima de R$ 2. "Aumentou a capacidade de intervenção do Banco Central", pondera Abate. Ele já projeta uma taxa de câmbio entre R$ 1,88 e R$ 1,90 no fim do ano.
Para Octávio de Barros, economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya, ocorreu uma convergência de boas notícias nos últimos dias de outubro. Foi um equívoco do BC estabelecer reservas internacionais líquidas tão apertadas, desconsiderando a forte concentração de pagamentos do fim do ano e superestimando o fluxo de entrada de recursos, disse. Ele destaca como fator positivo as declarações das agências de risco (como Moodys e Standard & Poors) sobre o Brasil. "Elas não elevaram a classificação do Brasil, mas disseram que o País está em uma ótima direção", observa.
O estudo da Moodys com a informação de que os bancos brasileiros estão bem preparados para enfrentar o bug do milênio também ajudou. Na avaliação de Barros, o fluxo de recursos para os países emergentes vai melhorar no primeiro trimestre do ano 2000 e uma parte desses recursos pode estar sendo antecipada porque as ações estão baratas no Brasil. Para o economista Roberto Padovani, da Tendências Consultoria Integrada, a evolução do cenário externo foi chave para a reversão das expectivas ruins.
Quando as boas notícias externas se somaram à atuação do Banco Central, se criou um cenário favorável, diz. Ele acha que há um otimismo exagerado no mercado, agora. Os pagamentos continuam altos em novembro e dezembro e o fluxo de entrada de recursos deve ser modesto. Essas duas situações, diz, vão contribuir para que a taxa se mantenha entre R$ 1,90 e R$ 1,95. "Mas a cotação de R$ 2 foi uma bolha ruim", resume.
A volta do otimismo não elimina os problemas que o Brasil enfrenta. Para alcançar o superávit fiscal negociado com o FMI, vai ser preciso manter o forte controle de gastos que marcou as contas públicas neste ano. Um ponto a favor será um volume de pagamentos externos muito menor. Este ano, o déficit na conta que o País mantém com o resto do mundo (conta corrente) está em US$ 26 bilhões. Em 2000 ficará próximo de US$ 22 bilhões.

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