Piercing na língua, tatuagem, cabelo tingido, um ar deprimido... De uma hora para a outra, seu filho de 15 anos aparece com um visual novo, se tranca no quarto por horas. Começa a sair à noite, sempre com a mesma turma, e ainda coloca umas correntes no pescoço e na calça.
É motivo para preocupação? Hora de levar ao psicólogo? Mudanças súbitas de comportamento costumam deixar os pais de cabelo em pé e são, no caso dos adolescentes, difíceis de ‘‘diagnosticar’’: trata-se apenas de uma fase ou são sintomas de algo realmente sério?
Tragédias como a que abalou os EUA há duas semanas deixam os pais ainda mais aflitos. A descrição dos dois estudantes que mataram 13 pessoas e se suicidaram na escola poderia ser usada para milhares de adolescentes: Eric e Dylan viviam na Internet, jogavam videogames violentos, adoravam ouvir os versos satânicos do cantor Marylin Manson, vestiam casacões pretos e formavam um grupo inseparável.
O incidente no Colorado foi motivo de preocupação na casa do estudante Cid Vale Ferreira, 19 anos, que segue o estilo ‘‘gótico’’. Já acostumados com os gostos bizarros do filho, os pais de Cid voltaram a questionar seu comportamento.
‘‘Minha mãe quis conhecer melhor os símbolos que eu uso e perguntou sobre os meus amigos. A turma dos Estados Unidos foi tachada de gótica, mas não tem nada a ver. Não cultuamos o satanismo nem o nazismo, e a música do Marilyn Manson não é gótica’’, diz.
Por mais estranhas que sejam, as preferências musicais e estéticas dos adolescentes não são motivo de preocupação por si só - a menos que envolvam elementos de violência, agressividade ou segregação. Os pais precisam se preocupar apenas se as ‘‘manias’’ teens dominam toda a vida do filho. ‘‘Se ele resolve se vestir de um jeito diferente, seguir um estilo, mas continua indo bem na escola, tem uma relação satisfatória com a família, não deve ser um problema’’, explica a psicanalista Miriam Debieux Rosa, professora da Faculdade de Psicologia da USP e da PUC-SP.
A dona de casa Terezinha Rita de Morais dos Santos, mãe de Fabiana, 17 anos, namorada de Cid, ficou assustada quando sua filha começou a andar de preto e a auto-intitular-se ‘‘gótica’’. ‘‘Ela tinha 14 anos, logo achei que Fabiana estava usando drogas.’’
Conversamos e ela se explicou. Depois fiquei observando seu comportamento e o dos amigos. Vi que ela continuava a mesma menina, estudando normalmente e trabalhando’’, conta Terezinha. Ao falar de adolescência, não se pode esquecer que essa é uma época de contestação e experimentação.
O estudante Lucas Santana Lopes, 15, gosta do cantor Marilyn Manson desde 1997, para desgosto da mãe. ‘‘Ele diz essas coisas de satanismo, faz um tipo ‘cara do mal’. Sei que as músicas falam de coisas que são certas e outras erradas, mas eu gosto’’, diz Lucas.
Vale aqui uma explicação aos não-iniciados: Marilyn Manson é um cantor norte-americano que, numa terceira tentativa de emplacar nas paradas, decidiu adotar um visual satânico. Seu nome é um mix de ‘‘mulher bonita (Marilyn Monroe) e assassino (Charles Manson, acusado das mortes de sete pessoas, entre elas, Sharon Tate’’.
O diabo-de-butique, que se diz ‘‘um padre na igreja de Sat㒒, canta versos como ‘‘ódio hoje, sem amor para amanh㒒. Lucas conta que a mãe propôs lhe dar R$ 200,00 em troca de sua coleção de CDs de Manson, mas ele recusou a proposta. ‘‘Esse som passa uma coisa ruim, meio negativa, quase ‘do mal’. Esse cara é muito louco, não tem nem sexo definido’’, diz a médica Mary Santana, mãe de Lucas.

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