Mudança da política cambial foi feita em meio a atritos e disputa
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999
Por Suely Caldas 
Rio, 12 (AE) - Os primeiros 15 dias de janeiro foram intensos e emocionalmente pesados para quatro personagens do governo que viveram o epicentro da guinada radical da política cambial - o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro Pedro Malan, Gustavo Franco, que cedeu a cadeira no Banco Central, e Francisco Lopes, que a recebeu.
O Palácio da Alvorada, o Ministério da Fazenda, a sede do BC em Brasília e a casa de Franco, em São Conrado, foram cenários de conversas e negociações sigilosas, que culminaram com a demissão de Franco do governo.
A convicção do presidente da República de que era preciso mudar o câmbio foi construída e combinada com os personagens envolvidos há alguns meses mas, no momento de concretizá-la, as coisas mudaram. Entre setembro/outubro, com a concordância dos três auxiliares, o Fernando Henrique confiou a Francisco Lopes a tarefa de preparar a nova fórmula do câmbio que, obviamente, contemplaria alguma desvalorização do real.
Lopes já vinha mantendo conversas sozinho com o presidente desde o final do ano passado e, nos primeiros dias de janeiro, comunicou ao chefe que concluíra o trabalho. Porém, gostaria de ele próprio operar a mudança. Como o combinado era Franco permanecer à frente do BC, o presidente convocou-o para uma conversa no dia seguinte, para a qual também foi chamado o ministro Pedro Malan.
A queda de Franco começou nessa conversa, no Palácio da Alvorada, no dia 7 de janeiro. Ele próprio disse ao presidente que preferia sair: seis anos de governo o afastaram do Rio e problemas familiares acumularam-se, exigindo agora maior participação sua. Porém, alertou, se seu substituto fosse Lopes, a condução da nova política cambial seria confusa.
Lopes não cedeu e reagiu: o formulador das mudanças reúne mais condições de operá-las. Na sexta-feira à noite, dia seguinte à conversa, o presidente ligou para a casa de Franco e o demitiu por telefone: decidira mesmo confiar a presidência do BC a Chico Lopes.
No sábado, Malan procurou Franco em sua casa, em São Conrado. Seu desejo era mantê-lo na presidência do BC e saiu dali disposto a convencer o presidente de adiar as mudanças no câmbio. Não conseguiu.
Fracassada a investida, Malan avisou Franco, na terça-feira, dia 12: ele estava irremediavelmente fora do Banco Central. Franco respondeu que já esperava, preparou-se para limpar as gavetas e redigir a nota de despedida, lida no dia seguinte, quando a demissão foi oficialmente anunciada.
Nenhum dos diretores do BC, muito menos Gustavo Franco, conhecia a nova fórmula da banda diagonal endógena engendrada por Lopes. Diferente do que foi noticiado pela imprensa, o diretor da área externa, Demósthenes Madureira Pinho, não esteve no Rio para ajudar Lopes e formatá-la.
No mesmo dia da demissão de Franco, seu substituto na presidência do BC explicou para o mercado o novo modelo do câmbio. Dois dias depois ficou claro: a nova banda não funcionou
o mercado não aceitou-a. Com a taxa cambial em descontrole, ultrapassando o teto da banda e as reservas saindo perigosamente
o governo cedeu às pressões pela desvalorização do real e deixou o câmbio flutuar. Começou aí a queda de Chico Lopes.
Fernando Henrique deixou passar uma semana das duas experiências - a banda diagonal e a flutuação - para voltar a falar com Gustavo Franco. "Como você avalia o novo câmbio até aqui?", quis saber o presidente, em telefonema para Itaipava (próximo a Petrópolis), onde Franco recolheu-se com a família.
Não ouviu diagnóstico agradável e otimista. Mas aproveitou para reiterar o convite para Franco integrar o conselho de economistas conselheiros do presidente, que o secretário Edward Amadeo está organizando.
Porque mudar - Fernando Henrique convenceu-se da necessidade de mudar a política cambial na mesma época em que decidiu criar o Ministério do Desenvolvimento, que nasceu com o nome de Ministério da Produção. Seu desejo era fazer do segundo mandato um período de prosperidade, crescimento econômico, expansão do emprego.
Nessa fase, final do primeiro semestre do ano passado, o presidente ouvia muito os irmãos Mendonça de Barros, o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) André Lara Resende e os ministros José Serra (Saúde) e Paulo Renato (Educação). A idéia de ter o câmbio como âncora e em marcha lenta, defendida por Malan e Franco, foi sendo derrubada por uma conjunção de opiniões de praticamente todos os demais interlocutores de FHC, que o convenceram a ouvir pessoas de fora do governo.
O presidente passou a colocar em sua agenda encontros diferentes do passado recente: recebeu diversos empresários de São Paulo, entre eles o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Láfer Piva.
A crença de que a mudança cambial era condição necessária para um novo modelo voltado para o desenvolvimento foi se firmando na cabeça de Fernando Henrique. No mesmo ritmo em que ele foi se afastando de Gustavo Franco e se aproximando de Chico Lopes.
Porém, dois acontecimentos desarticularam os planos do presidente: a grave crise da Rússia atacou forte o Brasil, substituindo o desejo de prosperidade pela fatalidade da recessão econômica. A segunda frustração foi perder os formuladores do projeto desenvolvimentista: os irmãos Mendonça de Barros e André Lara Resende acabaram demitindo-se, no rastro do episódio do grampo no BNDES.


