São paulo, 08 (AE) - A mudança na política cambial e a consequente desvalorização do real em 52,6%, a partir de janeiro
não proporcionaram ganho de renda para a maioria dos produtores rurais. A euforia dos agricultores, motivada pela perspectiva de alta dos preços em reais, acabou frustrada. Os estoques elevados das commodities deprimiram os preços no mercado internacional. Os custos dos insumos agrícolas subiram 40,6%, em média, anulando o efeito da alta do dólar.
Levantamento feito pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) com base nos preços médios de 27 produtos agrícolas (valores vigentes em maio) mostrou um crescimento da renda agrícola de apenas 0,2% até julho, se comparada a de igual período do ano passado. A desorganização dos preços relativos e o espaço criado pelos excedentes de produção para a manipulação do mercado levaram a maioria dos agricultores a liquidar suas safras por preços em dólar mais baixos dos alcançados em 1998.
O expressivo crescimento da produção de grãos neste ano agrícola, cuja última estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foi de 83,2 milhões de toneladas, não contribuiu para melhorar a renda no campo. Ao contrário, a colheita volumosa, somada aos estoques internacionais de produtos como soja, açúcar e suco de laranja, provocaram queda nas cotações internacionais, anulando o ganho cambial.
Se os agricultores que destinam a produção ao mercado externo não obtiveram ganhos adicionais com a desvalorização cambial, os produtores de alimentos dirigidos ao consumo interno estão no pior dos mundos. O preço do arroz caiu 29,7% e o do feijão, 32,7%, em reais, de janeiro a maio, segundo levantamento feito pela Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). A soja, que tem hoje o pior preço dos últimos 20 anos no mercado internacional (US$ 160 a tonelada), proporcionou um ganho de 0 4%.
Os produtores de alimentos consumidos no País estão submetidos a pesadas perdas. O prognóstico para eles não é favorável. A elevação dos preços de fertilizantes, defensivos e combustíveis dificilmente poderá ser repassada para os preços do produto. A situação adversa dos produtores de grãos e demais mercadorias dirigidas ao mercado externo deve mudar, acredita o professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Homem de Mello. Os contratempos climáticos nos Estados Unidos, onde a temperatura nas zonas produtoras chegou a 45° C, e os primeiros sinais de recuperação das economias asiáticas, devem contribuir para a recuperação da renda agrícola.
Segundo estimativa do professor da USP, a renda no campo deverá crescer 10% até o fim do ano, em relação ao resultado de 1998. O problema é que, reconhece Homem de Mello, no momento da provável recuperação dos preços, os estoques já não estarão nas mãos dos agricultores, mas da indústria ou comerciantes atacadistas. Os ganhadores não serão sequer esses empresários. Como negociam e processam volumes elevados de alto valor, costumam proteger-se dos riscos derivados das oscilações abruptas do mercado, por meio de operações de hedge. A renda, caso realmente ocorra uma recuperação dos preços, deverá ficar nas mãos dos investidores desses mercados.
A confiança na recuperação dos preços, demonstrada pelo professor da USP, não é compartilhada pelos operadores do mercado. Para eles, o calor e a estiagem nos EUA deverão afetar fortemente as lavouras de milho e de trigo norte-americanas, mas não está claro se irá comprometer a safra estimada em 80 milhões de toneladas de soja. Segundo informam, a cultura da soja é extremamente resistente. À primeira chuva, o que já ocorreu no início da semanta passada, as plantas deverão recuperar-se. Por enquanto, não há prognóstico seguro e não seria prudente prever alta nas cotações.

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