Muçulmanos lutam por lei islâmica no sul da Rússia
Makhachkala, Rússia, 10 (AE-AP) - Algumas semanas atrás, antes da mais recente erupção de violência na república autônoma russa do Daguestão, homens barbudos cansados pelo combate sentaram-se em um bloqueio levantado em uma via à entrada de sua aldeia.
Um carro se aproximou. Eles ergueram suas armas e apontaram contra o veículo. Quando o carro parou, eles viram um homem com um cigarro na boca ao volante. Então, o motorista foi levado para um prédio com uma bandeira islâmica verde hasteada. Dentro do edifício, um mulá falou ao homem que o Alcorão proíbe o cigarro. O desconhecido foi, então, levado para uma sessão de castigo - 40 batidas nas costas com um cano de metal.
"Por favor, não acertem os meus rins. Eu tenho os rins doentes", implorou a vítima.
"Ok, não será tão ruim assim", respondeu um dos guardas.
Eles procederam de forma lenta e aplicaram um castigo que pareceu ser mais exemplar que doloroso. De qualquer forma, o sinal foi dado: a lei russa não significa nada nesta parte meridional da Rússia; o Alcorão é a lei da terra.
Pela região montanhosa do Cáucaso, uma mistura rebelde de nacionalismo e fundamentalismo islâmico está desafiando a administração de Moscou.
Nos dias recentes, esse desafio evoluiu para uma confrontação direta com o exército, no maior conflito interno da Rússia desde a guerra na vizinha Chechênia (1994-96). Pistoleiros, supostamente militantes islâmicos, tomaram várias aldeias no sábado e exigiram um fim à presença russa na região.
Como geralmente acontece quando a violência estoura no Cáucaso, a Rússia culpou a Chechênia, que emergiu de sua guerra de dois anos contra Moscou efetivamente independente.
Mas o Daguestão e os outros vizinhos da Chechênia, como Ingushetia e Ossétia do Norte, promoveram seus próprios movimentos de independência islâmicos, causando aos líderes do Kremlin pesadelos de uma maré fundamentalista que varre uma boa parte da Rússia meridional.
A Rússia está cavando agora o que poderia se tornar em uma briga sórdida no Daguestão.
Karamakhi, uma aldeia a 40 quilômetros ao sudoeste da capital do Daguestão, Makhachkala, é a principal fortaleza dos Wahhabis, uma seita religiosa militante que desafiou Moscou e estabeleceu a lei islâmica na região.
Até mesmo antes da recente violência no Daguestão, Karamakhi e quatro aldeias vizinhas já tinham se tornado lugares onde funcionários russos e tropas não ousavam entrar.
Junto com o separatismo notado na Chechênia, os Wahhabis do Daguestão empenharam em subverter o governo russo local e fundir as duas regiões em uma república islâmica independente.
"Eu não aceito e eu não obedeço nenhuma lei russa, assim como meus homens", disse o líder dos Wahhabis no Daguestão, Bagaudin Magomedov, ao jornal semanal Mocidade. "Se as pessoas do Daguestão não gostam de viver conforme a lei de Alá, nós tomaremos as medidas necessárias", ameaçou.
Funcionários russos dizem que foram encontrados corpos de colegas em campos de batalha e que alguns Wahhabis, responsabilizados pelas mortes, foram capturados.
"As tropas russas não têm nada o que fazer no Daguestão, e nós não consideramos a polícia local, que obedece ordens russas", disse Magomedov.
Há um ano, os homens de Magomedov colocaram suas palavras em ação e desapropriam a polícia local e administradores de Karamakhi e aldeias circunvizinhas.
As autoridades não puderam fazer nada, e pediram ajuda ao governo federal.
Sergei Stepashin, que era na ocasião o ministro do Interior russo, foi para Karamakhi e alcançou um pacto com o Wahhabis - presenteando-os com equipamentos médicos caros em troca de um acordo para permitir o retorno da polícia à aldeia.
Os Wahhabis concordaram em eleger um administrador local, mas eles nunca permitiram o retorno da polícia. Stepashin, que se tornaria primeiro-ministro mais tarde, não falou publicamente sobre o assunto desde então. Mas seu último dever oficial antes de ser demitido pelo presidente Boris Yeltsin na segunda-feira foi viajar para o Daguestão para averiguar as ações russas diante da mais recente crise.
Os Wahhabis policiam seu território e obrigam os 10.000 residentes a obedecerem suas rígidas leis islâmicas. As pessoas são proibidas de escutar música. Só são permitidas visitas debaixo de escolta, e são proibidas máquinas fotográficas.
Todas as mulheres vestem à moda islâmica, com os rostos e pernas cobertos.
Não é permitido às crianças possuir animais de estimação ou brinquedos.
O principal negócio dos residentes é o transporte de carga. Muitas famílias têm vários caminhões e regularmente transportam produtos através da Rússia. Entretanto, há dois tipos de carga nunca aceitos pelos residentes: álcool e tabaco.
O negócio com o transporte parece estar rendendo um bom dinheiro. Prova disso é que as estradas ao redor de Karamakhi estão em estado excelente, e numa rápida visita é possível ver a abundância de Mercedes, BMWs e outros carros estrangeiros.





