Os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que há 42 dias invadiram a Fazenda Mestiça, em Rio Branco do Ivaí (Norte do Paraná), conseguiram reverter a desocupação e ganharam um tempo extra de 15 dias para encontrarem outra área para acamparem. O prazo foi obtido graças à pressão política exercida contra o Governo do Estado, que recuou e não deu a ordem para que os cerca de 500 policiais militares cumprissem a ordem de reintegração de posse, obtida dias depois da invasão.
O comboio com mais de 15 viaturas, cinco ônibus e equipes de socorro chegou à propriedade de 1,2 mil alqueires por volta das 9 horas. Os policiais encontraram os sem-terra atrás de uma barricada erguida na entrada da fazenda. Crianças e Mulheres na linha de frente e os homens adultos na retaguarda. Todos empunhando facões, foices e pedaços de madeira. A antecipação dos integrantes do movimento foi possível porque eles montaram uma guarita de observação em um dos pontos mais altos da área e, de lá, perceberam a movimentação dos carros da PM e se organizaram para impedir o acesso até a sede, onde estava armado o acampamento.
Segundo um dos líderes do acampamento, Josmar Choptian, mil famílias estariam acampadas na área, habitando cerca de 300 barracos. ''É um dos maiores acampamentos do Paraná hoje'', citou o interlocutor. Ele afirmou que a área não foi ocupada por ser improdutiva - o que não é - mas a decisão foi tomada como um instrumento de pressão para que o Governo Federal agilize a reforma agrária.
''A lei é muito desfavorável aos trabalhadores rurais sem-terra. Aqui foi ocupado porque a proprietária (a industriária Maria Antonieta Junqueira Netto Cordeiro) vive em São Paulo e isso aqui é uma chácara para ela. Tanto que ela não aparece aqui há mais de 20 anos'', argumentou. Ele prometia resistir à investida da Polícia caso o número de policiais não fosse muito superior ao de acampados.
O comandante da operação de desocupação, tenente-coronel Ronaldo de Oliveira, avisou de antemão que seguiria pela via da negociação para cumprir a decisão judicial. Para a PM, o número de famílias acampadas não seria superior a 180. ''Negociar, negociar e negociar. Essa é a nossa palavra de ordem'', afirmou. E foi o que aconteceu. Só que os sem terra em Curitiba abriram outra frente de discussão - política - e conseguiram um prazo de 15 dias para deixar a fazenda. Neste tempo, eles terão de procurar outro local para se fixarem. Segundo os líderes, essa nova área deverá ser também no município de Rio Branco do Ivaí. ''Já temos uma janela (área)'', comentou Choptian.
O administrador da Fazenda Mestiça, Mauro Gabriel de Andrade Vilela, criticou a decisão do Governo e calculou que a proprietária já teria acumulado um prejuízo de R$ 500 mil com a invasão. ''Não tem nada de errado com a fazenda ou com a proprietária. Não existe nada que eles possam se apegar para justificar essa situação'', garantiu. Ele reclamou que a sede teria sido depredada, ferramentas roubadas e pelo menos 38 cabeças de gado teriam sumido.

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