Curitiba - Em um discurso afinado, o ex-secretário agrário do PT Plínio de Arruda Sampaio, e o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile, defenderam ontem a mobilização dos que demandam pela reforma agrária para que ela saia, de fato, do papel. Os dois falaram para uma platéia de cerca de 5 mil trabalhadores rurais sem-terra, que participam, em Curitiba, do 17º Encontro Estadual do MST.
Para Arruda Sampaio, que participou da elaboração do Plano Nacional de Reforma Agrária, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) só irá se libertar das amarras impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), ao qual ele se referiu como ''tropa internacional'' e ''exército estrangeiro'', quando a população sair às ruas como fez na campanha pelas ''Diretas Já'', em 1984. ''O que a gente faz quando é refém? Tem que se libertar. O que o povo brasileiro tem que fazer considerando-se que o seu governo é refém? Tem que libertar o governo. Ir para rua fazer pressão'', declarou.
Arruda Sampaio lembrou que foi proposto ao governo federal que 1 milhão de famílias fossem assentadas em quatro anos, mas esse número acabou sendo reduzido para cerca de 530 mil. Para ele, essa decisão não aconteceu por conta do desinteresse do presidente Lula na reforma agrária, mas porque o governo não pode gastar mais. ''Ele (Lula) está sitiado porque o outro lado tem a capacidade de fazer uma reação muito adversa ao povo brasileiro'', acrescentou.
Segundo Arruda Sampaio, todo o estudo para elaboração do Plano Nacional de Reforma Agrária apontou que o governo federal precisaria de R$ 24 bilhões para cumprir a proposta inicial de atender 1 milhão de famílias. Emprestando os números apresentados por Stedile, ele acusou a insignificância desse valor diante do volume de recursos que pequena parcela da população brasileira teria guardado no exterior. Stedile citou em sua palestra que, segundo dados da Receita Federal, 7 mil brasileiros têm US$ 72 bilhões em contas nos Estados Unidos.
''Nesses últimos 20 anos da retomada da democracia, que coincide com a existência do MST, nenhuma só família foi assentada nesse Brasil sem que antes ela não tivesse pressionado, ou seja, nenhum governo tomou ele mesmo a iniciativa de desapropriar um latifúndio e assentar, sem que antes os pobres tenham sido protagonistas e tenham pressionado'', declarou o coordenador nacional do MST, João Pedro Stedile, justificando a intenção do ''abril vermelho''.
Stedile destacou que o encontro no Paraná não tem o objetivo de deliberar sobre estratégias de ocupação de terras. ''A nossa mobilização não é contra o governo. É para que se aplique a Constituição (no que se refere a desapropriação de terras improdutivas) e se acelere a implantação do Plano Nacional da Reforma Agrária'', afirmou.
O coordenador do MST disse que acredita que o governo Lula irá honrar o compromisso de assentar 400 mil famílias nos próximos três anos. As outras 130 mil famílias, segundo Stedile, representam uma demanda da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) por crédito fundiário, o que o MST não considera reforma agrária.
Stedile acredita que a reforma agrária no Paraná, segundo estado de maior concentração de sem-terra, é viável. Para ele, as desapropriações deveriam acontecer na região noroeste do Estado, onde haveria ''concentração de latifúndio de pecuária extensiva''.

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