Trabalhadores rurais sem-terra fizeram ontem um protesto silencioso no Centro Cívico, em Curitiba, contra a violência usada pela Polícia Militar na desocupação de três fazendas no Noroeste do Estado na sexta-feira passada. No despejo, a PM usou bombas e balas de borracha, ferindo 40 pessoas. Destas, sete eram crianças, uma delas de apenas dois meses.
Vestidas com mantos vermelhos e carregando bandeiras do MST, os feridos e cerca de 50 sem-terra caminharam pela Avenida Cândido de Abreu até o Palácio Iguaçu, no bairro Centro Cívico. Nas escadarias da sede do governo, deram-se as mãos e rezaram. Depois, as vítimas foram para duas reuniões, nas quais denunciaram a violência. Uma às 15h30, na Vara da Infância e da Adolescência de Curitiba. Outra, às 17h30 na Procuradoria da República.
Entre as depoentes, estava a família De Conto. O pai, o agricultor Darci De Conto, 47 anos, apresentava as queimaduras no pé dinheiro, provocadas por uma bomba. A filha, Claudimara de Conto, 7 anos, mostrava a ferida na barriga provocada por uma bala de borracha. O filho, Adriano De Conto, 4 anos, tinha a mão esquerda enfaixada devido aos ferimentos causados por bombas e balas disparados pelos soldados. As duas crianças ficaram internadas dois dias, segundo relata a mãe Salete Peliezari, 31 anos, que disse ter sido espancada pela PM e ter desmaiado.
As histórias que seriam contadas são semelhantes à da menina Claudimara: ‘‘Eu corri porque a fumaça pegou nos meus olhos. Eu estava correndo junto com meu pai. O meu pai pulou a cerca e eu não consegui; fiquei enroscada. Aí a bomba pegou nos meus olhos de novo e a bala na barriga. E a polícia me pegou.’’
O coordenador estadual do Movimento do Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Roberto Baggio, disse que o movimento pretende denunciar o governo do Estado e a secretaria da Segurança Pública para entidades nacionais e internacionais. ‘‘Isto mostra a barbárie que tomou conta da reforma agrária. A polícia já não escolhe os alvos, disparando contra crianças’’, disse.
A assessoria do governo do Estado negou que haja uma política voltada à violência contra os sem-terra. O secretário da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, negou que tenha havido violência nas desocupações. Houve, conforme ele, resistência dos sem-terra, que gerou reação policial.