MST organiza assentados para saques
Líderes de sete estados afirmam que a seca atinge metade das cem mil pessoas que vivem em acampamentos no Nordeste
Agência Estado

Ed Ferreira/Agência Estado

(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
TensãoSem-terra erguem foices após saquear várias carretas em rodovia no interior de Pernambuco Trabalhadores rurais assentados em áreas desapropriadas pelo governo federal na região Nordeste vão participar de saques a supermercados, armazéns e depósitos do governo de uma forma mais efetiva. A decisão foi tomada ontem em Salvador numa reunião entre dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de sete estados do Nordeste. Eles discutiram as consequências da seca nas áreas de acampamentos do MST.
De acordo com Ademar Bogo, da direção do MST da Bahia, o Ministério da Reforma Agrária cortou a distribuição de cestas básicas nos assentamentos em fase de implantação. ‘‘Nesses locais a seca está castigando as famílias da mesma forma que o restante da população nordestina afetada pelo problema’’, disse Bogo, justificando que, por causa disso, a única forma de os trabalhadores rurais conseguirem alimento é promovendo saques.
O dirigente calcula que cerca de cem mil pessoas morem nos acampamentos do MST no Nordeste. ‘‘Pelo menos a metade desse contigente está sendo afetada pela seca’’, disse. Participaram da reunião representantes da Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará.
Pelo menos dez carretas carregadas com alimentos foram saqueadas por integrantes do MST na manhã de anteontem. O ataque ocorreu na BR-428, que liga Recife a Petrolina, em Pernambuco. Os saques aconteceram em momentos diferentes e em vários municípios do sul do Estado. Somente em Santa Maria da Boa Vista, a 112 quilômetros de Petrolina, sete carretas foram levadas e descarregadas pelos sem-terra na fazenda Catalunha, onde estão acampadas 700 famílias.
Os trabalhadores argumentam que os saques aconteceram por causa do atraso no fornecimento de cestas básicas pelo governo do Estado. ‘‘Há mais de 80 dias não recebemos alimentos e a situação é insustentável’’, justifica Luiz Carlos Ferreira, líder do MST no acampamento. ‘‘Depois que acabar esta comida, se o governo não fornecer as cestas básicas e condições para plantarmos, vamos continuar com os saques’’, ameaça Ferreira.
O acampamento da fazenda Catalunha parece uma pequena cidade que abriga, há quase dois anos, cerca de dez mil pessoas. A fome é o principal problema dos moradores. ‘‘A coisa que mais dói em um pai é ver seu filho pedindo comida’’, reclama Raimundo Silva. Envergonhado a ponto de não revelar seu nome completo, ele acrescenta: ‘‘É muito pior, ainda, ver seu filho pedindo para morrer por não suportar mais viver sem comida’’.
Os sem-terra não usaram de violência para render os motoristas e, ao contrário do que aconteceu em Gravatá (PE), anteontem, o MST não anunciou o saque. ‘‘Nós fizemos isso porque estávamos no limite da fome’’, assegurou José Balbino de Souza. Os saques na rodovia surpreenderam até mesmo as polícias militar e rodoviária, que só souberam do fato horas depois que os motoristas já haviam sido liberados.
‘‘Nós planejamos tudo certo, tanto é que descarregamos os caminhões em menos de meia hora’’, conta Luiz Carlos Ferreira.

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