Curitiba, 10 (AE) - O Movimento dos Trabalhdores Rurais Sem-Terra (MST) ocupou nesta madrugada mais uma parte da Fazenda Araupel, em Quedas do Iguaçu, a cerca de 450 quilômetros de Curitiba. De acordo com o coordenador do movimento no Estado, Rogério Mauro, aproximadamente 800 famílias participaram invasão. Esta foi a quarta ocupação de terras da Araupel nos últimos três anos. Nas duas primeiras, a empresa negociou a venda de 27 mil dos cerca de 80 mil hectares que compunham a fazenda, onde foi implantado o Assentamento Ireno Alves.
Segundo o coordenador do MST, hoje foram ocupados aproximadamente 10 mil hectares. O diretor de Recursos Humanos da Araupel, Roni Chiochetta, disse que vinha alertando o governo estadual desde janeiro, quando houve a terceira invasão. A fazenda tem 45% de mata nativa, 40% de reflorestamento, 12% de área com agricultura mecanizada e 3% com infra-estrutura. "Mesmo que quiséssemos vender seria muito caro e o governo não compraria", afirmou. Denúncia - Hoje, cinco integrantes do MST, retirados de fazendas do noroeste na sexta-feira, estiveram em Curitiba denunciando abusos que teriam sido cometidos por policiais. Adelina Ventura Nunes, de 34 anos, disse que foi acordada por volta de 1h30 da madrugada, com os gritos dos policiais. Junto com um filho de dois anos e uma de dez, foi levada para a sede da Fazenda Rio Novo, onde teria sido obrigada a se sentar em um piso gelado. Mulher de Sebastião Maia, um dos coordenadores dos sem-terra e que estava viajando, ela teria sido levada para um canto pelos policiais.
Um deles exigiu que ela dissesse onde o marido estava. "Ele disse que ia enfiar o revólver na minha boca para que eu chupasse até o cano vermelhar", contou. O policial também teria dito que os sem-terra aproveitavam que o dono da fazenda não estava para entrar na propriedade e fazer o que quisessem, por isso eles (policiais) também poderiam fazer o que quisessem com ela porque o marido não estava. "Disse que a gente não tinha dono e podiam estuprar e se apoderar da gente".
Juventino Nunes, de 54 anos, reclamou que todos os homens foram obrigados a se deitar de bruços no gramado úmido por cerca de quatro horas, durante a madrugada. Disse que quando os policiais chegaram, saiu correndo levando uma carteira com R$ 200,00. Perseguido, perdeu-a. Quando os policiais a devolveram, havia nela apenas os documentos.
O assessor da Secretaria de Segurança Pública, Valdir Bicudo, reafirmou hoje que "não houve nenhum tipo de violência" na desocupação das seis fazendas no noroeste. Segundo ele, um vídeo feito pelos policiais, com cerca de duas horas, mostrando a desocupação "pacífica", seria enviado à Secretaria de Estado de Comunicação Social. Bicudo também se valeu de declarações do deputado federal Padre Roque (PT-PR) aos jornais paranaenses, em que ele garante que não houve violência contra os sem-terra. Presos - Hoje, permaneciam detidas 16 das 18 pessoas presas durante a desocupação, sob acusação de formação de quadrilha, porte ilegal de arma e resistência a cumprimento de ordem judicial. Os dois que tiveram as prisões relaxadas - Gilson Manoel da Silva e João Fernandes Moreira - seriam caseiros das fazendas Rio Novo e Transval, segundo o advogado dos sem-terra Avanilson Alves Araújo. Em favor dos outros presos, ele entrará amanhã com pedidos de habeas corpus visando a liberdade provisória do acusados.

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