MST faz em SP primeira invasão de 98
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sábado, 03 de janeiro de 1998
Corrêa Neves Júnior Agência Estado Restinga 
Um grupo de 800 sem-terra, a maioria de Franca (SP) e região ocupou às 2 horas de quinta-feira terras da Fazenda Boa Sorte, de propriedade da empresa Ferrovias Paulistas S.A. (Fepasa), localizada em Restinga, a 25 quilômetros de Franca. A invasão foi organizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Esta foi a primeira ocupação de terras na região. Muitos dos invasores são desempregados das indústrias de calçados. O grupo é formado por 200 famílias.
A ocupação foi pacífica. Não houve violência e nem cerco policial. As primeiras horas do dia foram dedicadas à armação das barracas. Um pequeno trecho de terra também começou a ser preparado para o plantio de milho, feijão, mandioca e abóbora. Numa das 80 casas abandonadas de colonos foi instalada a coordenação - com bandeiras do Brasil, do MST e da CUT.
Nos primeiros dias de ocupação, é assim; as tarefas são sempre comuns; é uma fase difícil, de organização, disse Júlio Gontijo, membro da direção estadual do MST e um dos líderes da ocupação em Franca. Para ele, a falta de experiência com a terra de muitas das famílias francanas que participaram da invasão contribuiu para dificultar a ocupação. No Pontal do Paranapanema, em duas ou três horas, levantamos um acampamento; aqui, ficamos o dia inteiro e ainda não conseguimos terminar tudo, explicou.
Mas o líder disse não acreditar que a falta de experiência seja um empecilho para o assentamento. A maioria das famílias que está neste acampamento tem origem na terra; são ex-agricultores ou filhos destes; a readaptação ao campo se faz sem maiores problemas, defende.
A resistência, se necessária, será pacífica, garante o representante do MST. Não usamos e não permitimos o uso de armas, afirmou. Se houver necessidade de resistência, agiremos de forma pacífica, calma e tranquila, disse.
Sem serviçoMuitos dos invasores que ocuparam as terras da Fazenda Boa Sorte são desempregados da indústria calçadista de Franca. A cidade, maior pólo produtor de calçados masculinos no País, vive em crise há alguns anos, especialmente após a abertura das importações e a dura concorrência no mercado externo com o barato sapato chinês.
Aparecido Amorim, de 40 anos, é um exemplo típico de invasor no Pontal. Auxiliar de produção, trabalhou durante quatro anos na empresa Amazonas (produtora de insumos para a indústria calçadista) até fevereiro de 1997, quando foi demitido. Fiquei o ano inteiro procurando serviço inutilmente; a gente não tem condições, precisa trabalhar para sobreviver; sem opção, resolvi juntar-me aos sem-terra, já que fui agricultor e tenho experiência na roça, diz.


