A direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST-SP) fez um acordo ontem com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para evitar novas invasões de fazendas na região de Itararé, sudoeste de São Paulo. A trégua foi anunciada pelo coordenador regional do MST, Delwek Matheus, depois do Incra divulgar o laudo declarando produtiva a Fazenda Rio Verde, ocupada durante 23 dias por 600 sem-terra. O acerto aconteceu numa reunião entre líderes do MST e o superintendente regional do Incra, Luis Moraes Netto.
As famílias, que deixaram a fazenda há quatro semanas, estão acampadas numa estrada que corta a propriedade. Pela manhã Matheus havia afirmado que os sem-terra não estavam dispostos a ficar muito tempo na estrada e pretendiam fazer novas ocupações. ‘‘Já avisamos o pessoal e eles vão esperar que o Incra conclua a vistoria de duas fazendas na região’’, disse o líder As áreas em processo de vistoria são a Fazenda Cambará, em Itaberá, e a Fazenda Santa Helena, em Itapeva. Segundo Matheus, não foi fixado um prazo para o término das vistorias. ‘‘O Incra está se comprometendo a encaminhar esse processo de forma transparente’’, disse. ‘‘Enquanto fizer isso não vai haver nova ocupação.’
O laudo divulgado anteontem não surpreendeu o MST, afirmou o coordenador do MST. Matheus disse que, antes mesmo de fazer a vistoria, os técnicos do órgão haviam adiantado para a imprensa que a área era produtiva. ‘‘Não estou colocando o laudo em dúvida, só acho que seria surpresa se o resultado fosse diferente do que o pessoal do Incra antecipou.’
Abate- Sobre o abate de bois da Fazenda Rio Verde, denunciado pelo proprietário Roberto Maschietto, o líder do MST disse que os sem-terra têm orientação para não retirar animais do pasto. ‘‘Mas os trabalhadores também não vão passar fome.’ Maschietto denunciou à polícia o abate de oito animais na semana passada. Uma das carcaças tinha gravadas as iniciais MST.
O coordenador do MST negou que os sem-terra tenham destruído a sede da fazenda por vandalismo, segundo acusou Maschietto. ‘‘Foi uma questão de necessidade, as famílias só entraram na casa para se proteger da polícia, que sobrevoava a área com helicóptero.’ Segundo ele, os sem-terra abrigaram-se e armaram barricadas para resistir à tentativa de despejo da PM. ‘‘Nesse intento, alguma coisa pode ter sido danificada, mas não foi por vingança ou vandalismo.’ Ele disse que o sumiço de dinheiro e de documentos de um cofre da fazenda foi inventado pelo proprietário. ‘‘Não somos bandidos’’, afirmou.
O fazendeiro Roberto Maschietto, dono da Fazenda Rio Verde dá uma outra versão para o caso. Ele acusou ontem os sem-terra de terem abatido, na madrugada, um touro usado para reprodução na propriedade.
A carcaça do animal foi encontrada à tarde pelo filho do fazendeiro, Cyro Maschietto. ‘‘Agora virou provocação, pois eles sabem que o touro não tem carne boa.
Segundo o fazendeiro, o boi foi morto no meio do piquete onde cobria cerca de 70 novilhas e foram retiradas apenas as carnes mais nobres. O animal, da raça nelore tabapuã, valia cerca de R$ 3 mil. ‘‘Era o melhor reprodutor da fazenda’’, disse Maschietto.

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