MST e Contag unificam ações para futuras ocupações
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segunda-feira, 17 de maio de 1999
Por Hugo Marques e Sandra Sato 
Brasília, 18 (AE) - O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) irão unificar suas estratégias e ações, para fazer ocupações, marchas e protestar contra o governo de forma conjunta. A unificação começou a ser discutida, no início do ano, e alguns detalhes foram acertados no último domingo, no Hotel Glória, no Rio, em uma reunião de três horas entre João Pedro Stédile, ideólogo do MST, e o presidente da Contag, Manoel José dos Santos. O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann
que está em Cuba, disse que esta unificação será "fatal" para a Contag.
"Um dos principais mediadores desse processo de unificação é o Lula", disse hoje Santos. Acertados os detalhes da unificação de estratégias e ações, Stédile e Santos reuniram-se com o presidente do PT, Luíz Inácio Lula da Silva, e com o ex-deputado e secretário agrário do PT Plínio de Arruda Sampaio no Rio. A decisão dos dois movimentos sociais foi anunciada aos governadores do PT, Olívio Dutra (RS), Zeca do PT (MS) e Jorge Viana (AC), que também incentivaram a iniciativa.
O secretário agrário do PT diz que foi "fácil" unir os dois movimentos, apesar de o "governo viver criando estratégias para tentar dividir os trabalhadores no campo". Sampaio informou que Contag e MSTdecidiram somar forças para evitar retrocesso na reforma agrária. "O governo maquinou o projeto Novo Mundo Rural e o Banco da Terra como pretexto de parar as desapropriações", acusa.
Uma das primeiras iniciativas, segundo o secretário agrário, é "exigir" que o presidente da República receba uma comissão da Contag e MST. Os representantes dos trabalhadores rurais não querem outro interlocutor, porque ministros que vinham negociando com eles já disseram não ter "autoridade para decidir as reivindicações"e depender da área econômica.
O presidente da Contag afirmou que os movimentos sociais não aceitam a redução do crédito para a reforma agrária, a extinção dos empréstimos com desconto no pagamento e nem o ritmo "lento" das desapropriações. "A sociedade pode esperar um movimento muito mais combativo", avisou, prometendo participação do MST e da Contag também nas lutas de grupos economicamente excluídos, como os desempregados e os sem-teto. Para o presidente da Contag, o desemprego, a fome e a miséria formam um "caos social" e os movimentos têm de reagir. "A situação de convulsão social se aproxima a cada dia e a sociedade organizada tem de contestar", disse.
Santos antecipou que, nesta nova fase de luta, a Contag continuará a negociar com o governo. "É como disse nosso companheiro Che Guevara, endurecer sempre, sem perder a ternura", disse Manoel, parodiando uma frase do guerrilheiro argentino, que ajudou a concretizar a revolução em Cuba.
O ministro Raul Jungmann, disse hoje por telefone de Havana
Cuba, onde participa do 4º Fórum de Agricultura dos Países Ibero-Americanos, que a unificação será "fatal" para a Contag. "O MST irá canibalizar a Contag", disse o ministro, "literalmente engolir a Contag", disse. Raul Jungmann afirmou que a Contag é uma entidade de direito público que será responsabilizada juridicamente por todos os atos do MST. "A Contag terá problemas jurídicos e políticos seriíssimos", disse.
Já o presidente da Comissão Pastoral da Terra, d.Tomás Balduíno, aplaudiu a iniciativa. "É importante que se una forças ao invés de pulverizar o movimento", ressaltou, lembrando que uma das críticas feitas à esquerda sempre foi a falta de aglutinação. E observa que, se o governo estiver do outro lado da trincheira, deve preocupar-se com a força desses movimentos.
Tucano - A unificação do MST com a Contag foi possível graças à nova composição da diretoria da Contag. A Contag era dominada por Francisco Urbano, que é filiado ao PSDB, o mesmo partido do presidente Fernando Henrique Cardoso. Urbano era considerado "pelego" por alguns membros da Contag ligados à CUT.
Manoel José dos Santos, o novo presidente da Contag, foi o fundador da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Pernambuco, um dos Estados recordistas no número de invasões de terra em todo o País. Foi em Pernambuco que MST e Contag fizeram juntos algumas invasões de terras, exemplo da reocupação do Engenho Caramajal, no muncípio de Nazaré da Mata, em Pernambuco, em 1997
onde tinham morrido dois trabalhadores rurais na primeira ocupação.
A expectativa do MST e da Contag, revelou Manoel, é que seja criado um dos maiores movimentos sociais do mundo com a unificação das estratégias e ações. "Os camponeses do Brasil representam a maior força da América Latina", disse o presidente da Contag. João Pedro Stédile estava viajando para o interior hoje e o MST em São Paulo não soube para qual cidade. Stédile, no entanto, já tinha deixado clara a sua intenção de unificar as lutas sociais no Brasil.
A expectativa é que a unificação resulte em um movimento com maior poder econômico para financair suas ações. O MST tem representações em todos os estados brasileiros e sobrevive com contribuições dos associados. A Contag representa 3.600 sindicatos rurais em todo o País e recebe repasses de verbas até do governo federal, através de convênios para capacitação de mão-de-obra. Manoel disse que não será criada nova denominação para o movimento que surge. MST e Contag continuam sendo independentes nas suas respectivas administrações. O MST é um movimento social sem registro oficial e a Contag é uma entidade de direito público, que possui cadastro geral de contribuintes.


