Salvador, 5 (AE) - O Movimento dos Sem-Terra (MST) está sendo acusado de desvio de recursos da reforma agrária para campanha política, submeter trabalhadores rurais a regime de semi-escravidão e espancar assentados que não aceitam as normas da entidade, no Projeto de Assentamento Che Guevara, situado no município de Wenceslau Guimarães, a 282 quilômetros de Salvador. As denúncias foram feitas hoje pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Wenceslau Guimarães, Gilson dos Santos Gomes, ex-integrante do MST, que se diz ameaçado de morte por diretores do movimento.
Gomes está no sindicato com 26 famílias do Che Guevara que foram expulsas pelos dirigentes do MST e tiveram suas roças queimadas. Outras dez famílias permanecem no assentamento, sem poder sair porque o MST arregimentou 300 colonos para guardar a área, que tem o acesso proibido para os técnicos do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Segundo Gomes, no inicio do mês os assentados fizeram uma assembléia e decidiram que não queriam mais que o local fosse controlado pelo MST. Por causa disso, o pessoal do MST quebrou o pau, espancou vários assentados e tocou fogo nas roças, contou.
O sindicalista lembra que os primeiros sem-terra chegaram a Wenceslau Guimarães em 1989. Nosso sindicato começou a organizar as famílias e implantou quatro assentamentos, disse. Há cinco anos, o MST procurou o sindicato propondo uma parceria para engrossar a luta dos trabalhadores rurais. Nós aceitamos pois o objetivo final era reforma agrária, explicou, informando que, logo depois, mais quatro novos assentamentos surgiram. O problema é que os caras do MST começaram a fazer política e esquecer a reforma agrária
acusou Gomes. Segundo ele, pelo menos a metade dos R$ 5,1 milhões liberados pelo Incra para implantação de culturas agrícolas, compra de equipamentos e gado, foram desviados pelo MST. O dinheiro estaria sendo usado para financiar a luta política do movimento, com a compra de carros de som, organização de ocupações, passeatas e até na montagem da rádio pirata comunitária de Wenceslau Guimarães. Ele responsabiliza diretamente Rosalvo José dos Santos, dirigente estadual do MST, que ocupava a tesouraria do Sindicato de Wenceslau Guimarães. Quando descobrimos os desvios colocamos ele para fora, disse Gomes, que teve a assinatura forjada em vários documentos enviados ao Incra para a liberação de recursos.
O pior de tudo, segundo o sindicalista Gomes, é o regime maoista instalado nos assentamentos. Os trabalhadores são obrigados a uma jornada de oito horas nas roças comunitárias de cacau sem alimentação, relatou. Cada família tem de destinar 30% de sua produção para o MST. Isso faz com que o ganho médio do trabalhador por mês seja de R$ 26,00, disse, revelando que todos estão revoltados com essa situação. Nós lutamos durante anos contra os latifundiários para conseguir as terras e agora vem o MST querendo tomar, queixa-se.
Gomes já registrou queixa desde fevereiro na Delegacia de Polícia de Wenceslau Guimarães e na Polícia Federal mas, até, hoje, nenhum policial apareceu na região. A única providência oficial foi o bloqueio dos recursos do assentamento pelo Incra cuja promotoria está investigando as denúncias. O sindicalista vem sendo ameaçado de morte mas não quer deixar o município alegando ter sob sua responsabilidade 300 famílias. Segundo ele, vinte trabalhadores estão fazendo, informalmente, sua segurança pessoal.

mockup