MST do Paraná anuncia mais invasões
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sexta-feira, 11 de setembro de 1998
James Alberti 
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) do Paraná pretende promover novas ocupações no Estado na próxima semana, disse ontem, em frente ao Palácio Iguaçu, em Curitiba, José Damasceno, um dos líderes do movimento. As ocupações seriam uma represália à fraca resposta do governo do Estado às reivindicações do movimento, expostas em reuniões realizadas anteontem e ontem, após a Marcha Pelo Brasil. Ontem, cerca de três mil sem-terra, que tinham participado da marcha, fizeram um protesto em frente ao palácio em repúdio aos despejos promovidos pelo governo, especialmente, na fazenda Cachoeira, em Sapopema.
A ocupação é a única ferramenta de pressão que temos, disse Damasceno. Vamos ocupar as áreas que forem necessárias. O sem-terra afirmou que há possibilidade de novas caminhadas à capital se os recursos pleiteados pelos trabalhadores não forem repassados. Reforma agrária não é apenas distribuição de terra, disse Damasceno.
Divididos em duas filas indianas, os sem-terra caminharam do Largo da Ordem, no centro, onde distribuíram 30 toneladas de alimentos para carentes, até o Palácio Iguaçu. Estamos chegando ao Palácio da mentira, da vergonha, de onde saem as ordens para expulsar e prender os trabalhadores, gritava um sem-terra sobre o carro de som. Segundo Damasceno, 130 trabalhadores foram presos no governo de Jaime Lerner.
Uma comissão de 30 trabalhadores se reuniu com o assessor especial de assuntos fundiários José Carlos de Araújo Vieira, no segundo andar do Palácio. Na pauta de reivindicações do MST estão a entrega de 5 mil sacos de milho e feijão para o plantio de verão nos assentamentos, a liberação de financiamentos de R$ 5 milhões, a libertação de 11 trabalhadores presos e o fim das prisões e preseguições, consideradas políticas. O MST também havia pedido anteontem, na sede do Incra, a liberação de R$ 10 milhões de financiamentos agrícolas do Procera. O governo se comprometeu a liberar os empréstimos até o dia 23 de agosto, mas isso não é suficiente, segundo Damasceno.
O líder dos sem-terra disse que dos R$ 25 milhões do orçamento do Incra, R$ 23 milhões já foram liberados, restando somente R$ 2 milhões. O MST, segundo ele, tem proposta de financiamento de R$ 13 milhões já entregues ao governo e a demanda de mais R$ 29 milhões até dezembro deste ano. A falta de orçamento aponta para um impasse inevitável. O assessor especial para assuntos fundiários foi procurado pela Folha, mas não foi encontrado.
A Marcha Pelo Brasil despertou a população de 180 cidades do Paraná para os problemas sociais do País. Essa é a avaliação das lideranças do movimento no Estado, que afirmaram ter sido positivo o resultado da caminhada dos trabalhadores que voltaram para casa ontem. O debate nas comunidades mostrou às pessoas que existe a necessidade de fazer algo diferente, apresentar novas saídas para os problemas sociais, disse Jaime Calegari, integrante da direção estadual do MST.
Outro aspecto positivo da Marcha, segundo Roberto Baggio, da liderança do MST, é a mudança da visão das pessoas sobre o movimento. O sem-terra acredita que as colunas fortificaram a luta do MST. Não há dúvida que a imagem do MST melhorou nessas 180 cidades, afirmou. Para Baggio, as discussões mostraram que o movimento é diferente daquele pintado pelo governo do Estado e pela grande imprensa do País.
Apesar de exausto, o agricultor Antonio Alves de Lima, 42 anos, que caminhou 150 quilômetros, disse que faria tudo de novo. A gente já está acostumado a sofrer pela falta de terra, disse.


