MST diz que vídeo é da gestão de Lerner
Dimitri do Valle
As fitas de vídeo que mostram o treinamento antiguerrilha da PM paranaense indicam que os exercícios aconteceram em março de 1997 e outro em setembro de 1998. A informação divulgada ontem entra em confronto com a versão apresentada pelo governo do Estado. A informação oficial era de que as imagens pertenciam a atividades que foram proibidas há mais de cinco anos. O material foi apresentado por dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) que procuraram derrubar a tese de que o treinamento não foi mais aplicado durante a gestão do governador Jaime Lerner.
O advogado Darci Frigo, da CPT, e Rogério Mauro, da coordenação estadual do MST, basearam-se nos caracteres registrados no canto inferior esquerdo do vídeo. Numa das passagens, a data mostra soldados rastejando na lama no dia 26 de março de 1997. Em outra imagem, os policiais são vistos em treinamento de 23 de setembro de 1998. As filmagens foram feitas pelo soldado Antônio Cláudio Cardoso de Meira que entregou fitas de vídeo à CPT. As gravações mostram a desocupação ilegal de fazendas durante a madrugada no mês passado na região Noroeste do Estado. A ação irregular da PM foi denunciada pela Folha na quarta-feira passada. Meira, que trabalhava no setor de comunicação social da PM, em Curitiba, está escondido e deve prestar depoimento à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Câmara hoje ou amanhã.
Dirigentes do MST e da CPT também enfatizaram que a farda utilizada pelos policiais nos treinamentos começou a ser usada pela tropa a partir de 1996. Rogério Mauro identificou o comandante do 17º Batalhão da PM, coronel Donizete, que deixou a função em abril deste ano. Ele aparece nas imagens de setembro do ano passado proferindo discurso à tropa no treinamento para formação de policiais do 17º Batalhão de Polícia Militar, em São José dos Pinhais. O que mostramos só evidencia que tudo foi realizado nesta gestão, comentou Rogério Mauro, que criticou ainda a tentativa de acusar o MST de ter feito uma montagem das fitas.
Numa nota oficial, o Palácio Iguaçu continuou a defender que as imagens apresentadas pelo MST foram colhidas entre dezembro de 1994 e fevereiro de 1995. Lerner assumiu em janeiro de 1995. O comunicado cita que é o período em que o então tenente Jonas Mateus de Almeida exerceu a função de instrutor da cadeira de Operações de Defesa Interna e Territorial do Curso de Formação de Oficiais. Almeida aparece nas imagens divulgadas ontem pelo MST e CPT no treinamento de setembro de 1997. Almeida morreu no dia 9 de maio do ano passado.
Desde meados de 1995, conforme atesta o comando da Academia Policial Militar do Guatupê, os cursos e treinamentos da Polícia Militar não utilizam castigos físicos ou morais, que denigrem o aluno e profissional da Polícia Militar, esclarece a nota. O senador Roberto Requião (PMDB), governador do Estado que antecedeu Lerner, ficou irritado com as insinuações de que os treinamentos mostrados no vídeo eram comuns no seu governo e respondeu com ironia e ataque. Acho que quem mandou fazer as desocupações de madrugada foi o governador anterior, mas as ordens só foram cumpridas cinco anos depois. O governo de Jaime Lerner tem que deixar de ser sem-vergonha e assumir o que faz, disparou.





