MST denuncia plano de desocupação
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quinta-feira, 06 de maio de 1999
Das sucursais e agências 
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) denunciou ontem que o governo do Paraná está por colocar em prática um plano de desocupação de 45 áreas invadidas, principalmente na região de Querência do Norte, no Extremo-Noroeste, considerada o maior foco de tensão. Cerca de 8 mil homens de vários batalhões da PM estariam sendo deslocados para a região e 20 líderes do MST seriam presos na desocupação.
Representantes do movimento garantiram ontem ter visto, partindo de Curitiba, 25 viaturas e três ônibus transportando policiais. Rogério Mauro, da coordenação do MST no Paraná, disse que o movimento estava tentando convocar deputados federais da Comissão de Direitos Humanos para irem até a região. Ele disse temer um massacre como os de Corumbiara e de Eldorado do Carajás.
Não existe deslocamento de tropas da PM em nenhuma região do Estado, garantiu ontem, por meio da Secretaria da Comunicação Social, o secretário da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira. Ele admitiu, contudo, que se a situação se agravar nos acampamentos a PM pode agir, depois de estar realizando, há uma semana, uma operação de desarmamento nas estradas do Noroeste. A PM reforçou seu efetivo na região para revistar carros e pessoas depois de denúncia da revista Veja de que sem-terra estariam cobrando pedágio, ameaçando motoristas e chantageando fazendeiros.
A tensão entre os sem-terra aumentou ontem à tarde, quando um dos coordenadores do MST, Paulo de Marchi, de Querência do Norte, foi preso em Loanda, cidade vizinha, por ordem da juíza da comarca da cidade, Elizabeth Khater, que o acusou de desacato e mandou transferi-lo para Paranavaí. O MST afirma que a prisão foi uma armação e aconteceu após o sem-terra ser chamado em Querência do Norte para entregar alguns documentos no Fórum da comarca. A prisão do líder sem-terra fez com que o movimento deslocasse acampados de outras regiões para Querência do Norte.
A Secretaria da Segurança, porém, negou a versão do MST sobre a prisão. Paulo de Marchi teria ido ao Fórum para uma audiência, por ser um dos acusados em um processo de receptação de gado roubado na região. Após a audiência, ele teria ironizado a juíza, que imediatamente decretou sua prisão temporária por cinco dias. A juíza Elizabeth Khater, segundo assessores, não pôde dar entrevista porque estava ocupada com o caso.
Em Ponta Grossa (Sul do Estado), o governo do Estado era acusado de permitir torturas contra sem-terra presos em Ortigueira (região central) e transferidos para a delegacia daquela cidade. O coordenador da Pastoral da Terra (CPT) no Paraná, Darci Frigo, o secretário de política agrária do PT, ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio e o bispo dom Tomás Balduíno, presidente da CPT e representante da CNBB, estiveram na delegacia visitando os seis sem-terra presos dia 29 durante a desocupação da Fazenda Santa Maria, em Ortigueira (região central). À noite, a comissão teve um encontro com a vice-governadora do Paraná, Emília Belinati (ver matéria abaixo).
Darci Frigo disse ter ficado impressionado com os relatos da violência policial, segundo ele visíveis no corpo dos presos. Houve ameaça de estupro, eles foram ameaçados com pedaços de madeira, um deles teve uma corda colocada no pescoço e foi alçado pelas pernas e outro foi obrigado a comer esterco, denunciou. Segundo dom Tomás, os presos estão no corredor do presídio, sem poder trocar de roupa, pois não têm permissão para contato com a família.
Exame feito em Ortigueira confirma a denúncia de tortura, mas outro, feito em Ponta Grossa, a desmente. A CPT pretende levar o caso à OAB e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em frente à delegacia, cerca de 40 sem-terra fizeram vigília, seguida de celebração por dom Tomás, e vários deles jejuaram.
Por intermédio da Secretaria da Comunicação Social, o governo do Estado voltou a refutar a acusação do MST e da CPT. Segundo a secretaria, o governador Jaime Lerner, que estava ontem em Brasília, chegou a cancelar compromissos, a pedido do deputado José Dirceu (PT-SP), para conversar com membros da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. O encontro, marcado para o início da noite, no Escritório do Paraná, não aconteceu porque os deputados não apareceram, informou a secretaria.


