MST denuncia conflitos a entidades na Europa
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quarta-feira, 20 de dezembro de 2000
Maigue Gueths De Curitiba 
Uma comissão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) retornou anteontem da Europa, depois de passar 20 dias realizando encontros, palestras e reuniões com grupos ligados à defesa dos direitos humanos para denunciar a violência praticada pelo governo Jaime Lerner contra os sem-terra. Outro objetivo da viagem, segundo o secretário-executivo da CPT Jelson Oliveira, foi conscientizar a comunidade estrangeira para pressionar o governo Lerner a agilizar o processo de reforma agrária no Estado.
Foram feitos contatos com cerca de 30 organizações de 30 cidades diferentes. O MST e CPT entregaram às entidades um dossiê com a cronologia das invasões e despejos no Paraná, além de mostrar fotografias e vídeos com cenas de conflito entre governo e sem-terra. No dossiê consta que desde 1995, início da gestão Lerner, os conflitos resultaram em 16 mortes de sem terra, 323 feridos, 470 presos e 160 despejos.
Eles ficaram impressionados com os relatórios e as imagens, disse o representante da CPT. Entre os materiais que mais chocaram os estrangeiros, estão duas fitas de vídeo. Uma mostra o conflito entre sem-terra e Polícia Militar, no dia 2 de maio deste ano, na BR 277. A outra traz imagens de vários despejos de acampamentos, feitas pela própria Polícia Militar e entregues a representantes do MST. Segundo Oliveira, três mil cópias destas fitas estão sendo distribuídas em toda Europa.
Os brasileiros viajaram a convite da Foodfirst Information and Action Network (FIAN), entidade internacional de direitos humanos com sede na Alemanha, presente em 60 países e cujo trabalho está centrado no direito à alimentação e na luta pela reforma agrária. Além da Alemanha, eles estiveram na Bélgica, Áustria e França, onde a FIAN organizou encontros com diversos setores da sociedade civil, governamental e com a imprensa.
O deputado Christian Batallie, presidente da Comissão de Amizade Brasil-França, se comprometeu a manter contato com a Embaixada do Brasil em Paris para solicitar segurança às lideranças do MST no Noroeste do Paraná. Várias entidades européias também se comprometeram a solicitar informações sobre a reforma aos governos federal e estadual. Também ficou acertada a criação de uma rede de informações, pela qual as entidades européias irão adotar acampamentos e assentamentos no Paraná, para acompanhar a situação de cada local e intervir quando necessário. Outra definição da viagem será a importação de produtos produzidos nos assentamentos, como a erva-mate, doces e artesanatos para serem comercializados nas duas mil lojas Mundo Único, existentes na Europa para venda de produtos de países do terceiro mundo e importados através da Fair Trade (comércio justo).
Segundo o Assessor de Assuntos Fundiários, Antonio Carlos Coelho, os 16 assassinatos denunciados pelo MST na Europa teriam sido decorrentes de desentendimentos entre os próprios sem-terra. O levantamento do governo teria como fonte inquéritos policiais já concluídos e processos já julgados pela Justiça.
Com relação à reforma agrária, o secretário estadual da Justiça, Pretextato Taborda Ribas, disse que só neste ano 1.200 famílias foram assentadas no Paraná.


