Representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) declararam-se decepcionados e ameaçaram manter as ocupações em prédios públicos até o dia 15 de dezembro, data marcada para uma nova rodada de negociações com o governo, ao final de um encontro de seis horas com o superintendente do Incra, Milton Seligman, ontem, em Brasília. Ao final do encontro com Seligman, o representante da Comissão Nacional do Programa de Crédito para Reforma Agrária (Procera), Mário Schons, declarou estar decepcionado.
‘‘Não houve qualquer avanço. As coisas ficaram exatamente como estavam na última reunião’’, criticou. Schons contestou os números apresentados pelo governo sobre as famílias assentadas. ‘‘A cifra não passa de 22 mil’’, garantiu. Os representantes do MST afirmaram que não vão sair das superintendências regionais ocupadas até que o Incra apresente soluções concretas. ‘‘Até a nova reunião, continuaremos ocupando as superintendências’’, ameaçou Schons.
Milton Seligman defendeu a negociação como necessária, inclusive para que se possa desocupar as superintendências. Seligman foi brando ao avaliar a ação dos militantes sem-terra, que, segundo analisou, inclui, às vezes, ‘‘gestos bruscos’’ para forçar a negociação com o Estado. ‘‘Mas se esse gesto impede o nosso funcionamento, temos de tomar atitudes mais enérgicas, defendendo o interesse público’’, explicou.
Já o ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann afirmou que a ação dos integrantes do MST atrasa o cumprimento da meta do governo de assentar 80 mil famílias até o final do ano. ‘‘Não se trata de uma acusação, mas de uma constatação’’, disse. O MST invadiu e mantém ocupadas algumas superintendências do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em todo o País. No início da tarde de ontem, em uma entrevista à rádio CBN, Jungmann chegou a insinuar: ‘‘É de se perguntar se as invasões não têm o objetivo de impedir o cumprimento das metas’’.
‘‘Vou cumprir a lei e não negocio com invasores’’, insistiu Jungmann. ‘‘Onde está invadido, foi pedida reintegração de posse e só estamos negociando onde há espaço para negociar’’. O ministro negou também que as negociações feitas pelo Incra contrariem a linha de atuação definida no ministério. ‘‘O presidente do Incra está fazendo o que eu mando. Ele age sob minha supervisão’’, enfatizou. ‘‘Estamos de acordo no respeito aos procedimentos democráticos e também na necessidade de se respeitar a lei’’.
Campo Grande Cerca 100 mulheres e crianças se juntaram ontem aos 200 líderes sem-terra que ocupam desde quarta-feira a sede do Incra de Campo Grande. Os sem-terra representam 2.700 famílias acampadas às margens da BR-163, nos municípios de Jaraguari e Itaquiraí, desde 8 de março último. Os invasores afirmam que não deixarão o órgão sem uma resposta às suas reivindicações.

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