MST decide levantar acampamento em Buritis
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sábado, 20 de novembro de 1999
Por Chico Araújo 
Buritis (MG), 20 (AE) - Os trabalhadores rurais de cinco municípios da região que estão acampados desde terça-feira em frente à Fazenda Córrego da Ponte, do presidente Fernando Henrique Cardoso, decidiram dar uma trégua ao governo e levantar o acampamento. A decisão foi tomada hoje às 10h30 numa reunião da coordenação da vigília e do Movimento dos Sem-Terra (MST).
A desmobilização do acampamento, segundo o coordenador do MST, Lucídio Ravanello, deveria começar até o final da tarde. A fazenda está ocupada desde a madrugada de sexta-feira por 250 homens do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), que montaram na região uma operação de guerra.
Um grupo de agentes do Comando de Operações Especiais (COT) da PF ainda permanecem na fazenda. Hoje, às 10h59, helicópteros do Exército sobrevoaram a área. O sobrevôo ocorreu minutos após os líderes do movimento concordarem levantar o acampamento.
O recuo do movimento é fruto do encontro ocorrido sexta-feira à noite, em Brasília, entre um grupo de assentados e a direção do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que condicionou a liberação dos recursos para custeio (cerca de R$ 3 milhões), a partir de segunda-feira, à desmobilização dos agricultores. O acordo prevê a liberação dos recursos para os assentados dos 22 assentamentos e dois acampamentos prestes a serem regularizados.
"Estamos dispostos ceder para o governo para não sermos taxados de movimento radical", disse o líder dos assentados, Jorge Augusto Xavier.
Para ele, o governo encontra-se numa posição de xeque-mate. Xavier disse ainda, em tom irônico, que o MST já havia feito dez gols a zero no governo. "Agora, vamos abrir nossa defesa, deixa o gol aberto, para o governo fazer seu gol de honra e tomara que ele não acerte a trave."
A desmobilização acampamento só foi possível após um telefonema dos líderes do movimento à chefe do Departamento de Conflitos Agrários do Incra, Maria de Oliveira, que atuou como interlocutora do governo nas negociações com os trabalhadores acampados em frente da fazenda de FHC.
Pelo acordo com o Incra, os agricultores levantariam o acampamento mediante o cumprimento dos pontos acertados. Além da liberação imediata dos recursos, os manifestantes exigiam o transporte de retorno às suas áreas e a garantia do atendimento das reivindicações feitas ao Incra.
Os agricultores acordaram sair da frente da fazenda, mas vão permanecer mobilizados em Buritis para garantir o cumprimento do acordo fechado com o governo. "Se isso furar de novo, como furou várias vezes, vamos entrar em ação novamente a parir de segunda-feira", avisou Xavier. Os líderes do movimento não sabem se retornam ou não à Fazenda Córrego da Ponte. "Pode ser aqui ou outro alvo."
Procissão - Com o acordo já praticamente fechado, mas não sacramentado pelos líderes do movimento, os trabalhadores acampados fizeram pela manhã procissão, saindo do acampamento até o Córrego da Ponte. Ao retornarem, eles se reuniram em frente ao portão da fazenda e fizeram um celebração religiosa, destacando o papel do profeta Moisés na liberação do povo hebreu do Egito.
Durante o ato, que foi acompanhado à distância agentes da Casa Militar da Presidência, os manifestantes cantaram um hino em homenagem a Che Guevara e enalteceram Zumbi dos Palmares e Antônio Conselheiro em sua luta por liberdade. Wander Gontijo, gerente da fazenda de FHC, que estava no portão da propriedade, também acompanhou o ato.


